Ontem eu fui a uma exposição excelente aqui no Rio: Pierre Mendell – Cartazes, que fica na Caixa Cultural até o dia 9 de Novembro. Sabe aquelas exposições que deixam a gente sorrindo na frente das obras, e que depois você sai da galeria feliz da vida? Pois é, essa é uma delas. Pierre Mendell, um alemão que estudou design na Suíça, é uma das figuras que força o questionamento se design é arte. A resposta eu não sei, e para falar a verdade não me importa, o que eu sei é que ainda quero ver a exposição de novo antes de ela sair de cartaz :)
A marca registrada de Mendell é a força que ele consegue passar visualmente mesmo sendo extremamente econômico nos recursos gráficos que utiliza em cada obra. Ele usa pouquíssimo para dizer muito, e consegue criar esse impacto com uma naturalidade impressionante. Vendo um desses cartazes você percebe como é complicado ser simples, por mais irônica que essa frase soe. Em um dos textos da exposição o diretor do museu de design de Munique fala sobre isso ao tentar explicar o trabalho do designer:
É o mais difícil de tudo ser simples, ou ainda aprender a ser simples. Simplicidade significa deixar coisas de fora, concentrar, destilar, focar no essencial.”
O texto segue:
Generoso embora preciso. Claro, mas não estridente. Poético, mas não piegas. Penetrante, mas de coração. Passional, mas com razão. O equilibrista Pierre Mendell alcança essa harmonia, com força e com a leveza de uma pluma.”
Simplicidade é um assunto que me interessa muito, talvez eu tenha conseguido passar um pouco desse sentimento no post sobre o Paradoxo da Escolha. Depois que vi a exposição do Mendell pensei ser oportuno falar aqui no blog sobre um livro que descobri no ano passado especificamente sobre o tema, chamado As Leis da Simplicidade (The Laws of Simplicity, John Maeda). O título pode parecer coisa de auto-ajuda ou filantropia, mas na verdade o autor é designer e cientista computacional, fundador do laboratório de pesquisa Simplicity Consortium do Instituto Tecnológico de Massachusetts, nos EUA. Pois é, quem diria, o famoso MIT tem um centro de pesquisas voltado exclusivamente para o tema “simplicidade”. Pela lista de empresas parceiras do laboratório, que inclui Toshiba, Lego, Samsung, Time e Johnson & Johnson, dá para ver que o assunto é para ser levado a sério.
Achei o livro bem interessante, gostoso de ler. É fininho, ideal para um final de semana. Em dez leis e mais três pensamentos chaves Maeda procura explicar procedimentos que simplifiquem nosso dia-a-dia para, com menos, atingirmos mais. Exatamente como o Pierre Mendell faz em seus cartazes. Mas o interessante é que ele utiliza muitas referências de negócios e, sendo um cientista computacional, utiliza também vários exemplos da indústria de tecnologia. Os casos mais óbvios são do Google e do iPod, mas dentre outros ele passa por controles remotos, empresas, jogos de futebol e até pelo Tamagocchi. Tirando uns acrônimos que ele faz que eu achei meio bobos (se alguém ler o livro vai entender), posso dizer que gostei muito da leitura. Quando eu comprei só tinha em inglês, mas acabei de ver que ele já foi lançado em português e está baratinho no Submarino, só R$24,90. (ps: juro que não estou ganhando comissão sobre as vendas)
Para ser sincero não achei o livro genial, de mudar a sua vida, mas com certeza ele tem o grande mérito de levantar a discussão sobre simplicidade de uma forma acessível e não moralista. Acho que o grande ponto do livro é mostrar que o conceito de “simples”, que no geral as pessoas ignoram por acharem óbvio ou irrelevante demais, merece ser mais estudado. Somos inundados por um excesso crescente de informações e recursos tecnológicos todos os dias, já estava na hora de começarmos a ter uma postura mais orientada a simplificar as coisas, para que organizadamente as pessoas gastem menos para fazer mais, focando no que realmente importa.
Quando designers como Pierre Mendell e cientistas como Jonh Maeda nos passam esses pensamentos através de seus trabalhos ele acabam fortalecendo esse processo.
(Macete: Como pouca gente ainda está lendo esse blog acho que não tem problema eu falar isso :) A Caixa Cultural nunca vende catálogos de suas exposições, mas eles sempre produzem algo além do folheto de divulgação. E o melhor: eles dão esse material de graça! Mas pouca gente sabe disso, eles não avisam nada. Então sempre que for lá, como quem não quer nada, chegue para um dos monitores e pergunte “Vocês não teriam o catálogo da exposição?”. Se o monitor for com a sua cara ele lhe entregará o material. Nessa exposição do Pierre Mendell o “brinde” é uma caixa com cartões postais de quase todos os cartazes da exposição.)
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Abaixo alguns links para quem quiser ver mais sobre o assunto:
As Dez Leis da Simplicidade (em inglês), por John Maeda
O Triunfo do Low Tech, matéria na Exame de Abril desse ano, falando do sucesso de produtos práticos mas com baixa tecnologia
Vídeo da Palestra de David Pongue, mostrando porque simplicidade vende











É, de fato, a gente passa 5 anos na faculdade de design tentando aprender a fazer as coisas simples. Especialmente lá na Esdi, com forte tradição alemã funcionalista.
Mas é engraçado como as coisas mudam pra quem vai trabalhar com produtos populares.
Como o povão quer coisas complexas. Simplicidade é coisa d rico. Eles já tem tão pouco o tempo todo q, qdo podem, querem ter o máximo maior de todos os grandes. Isso serve tb pros ex-pobres novos ricos q acabaram d se mudar pra Barra. hehehe…
Feliphe!
Como assim? eu nem sabia que vc tinha blog…ou sabia(minha memoria de gravida e PESSIMA)o fato e que descobri hj por um acaso, nao tive tempo de ler, dei uma passada de olho e adorei o que li. inclusive a pagina “sobre mim” admiro a sua honestidade, ai se todos fossem iguais a vc, a web seria um mundo melhor :) na verdade acho que vc sabe muito de algumas coisas e um pouco de muitas coisas e adorei saber que vc vai dividir isso com a gente!
Amei o nome e o design do blog, adoro o seu estilo.
Ah! nunca andei no bondinho, se der vc me leva??? ou seu sobrinho nascera com cara de bondinho viu…rs
Ate breve…
xxx
Têca
Daniel, no livro do Maeda ele diz uma coisa engraçada relacionada ao que você está falando. Antigamente os controles remotos eram bem mais simples, porque as televisoes nao tinham tanta funcionalidades. Depois que as possibilidades aumentaram e eles tiveram que colocar mais botões a indústria começou a colocar aquelas capinhas nos controles maiores para esconder parte do painel. Mas perceberam que as pessoas não gostaram, porque quanto mais botão parecia que melhor era a televisão (mesmo que você não soubesse usá-los), então voltaram a colocar tudo aparente.
É, tem isso… Também tem que ver que público gosta de simplicidade e qual gosta de um rococó.
Têca, será que meu sobrinho vai conseguir ler o blog? Ou terei que fazer uma versão em inglês dele? :) Quando você vier a gente vai no bondinho, fato.
Obrigado de novo, pessoal!
Hey~~~
How come you have your name as your blog. That is so cool.
Good article.
Yeah sis, I’m very funky :)
Oi Feliphe,
fico muito contente em ver que os cartazes do Pierre provocam reflexão! Me dá a certeza de que o trabalho valeu a pena.
bjs
Bebel, seu comentário é uma honra para mim – e acredito que para todo o pessoal que lê o blog também.
O que achei mais legal foi receber ligações e emails de alguns amigos dizendo “Fui naquela exposição dos cartazes que você falou no post, muito legal mesmo.”
E, sinceramente, para mim essa foi a melhor exposição de 2008 aqui do Rio. Fico feliz de termos curadores como você e espaços como a Caixa, que aliás está com mostras cada vez mais interessantes.
Obrigado mais uma vez pelo comentário.
já que esse é o post mais comentado, acho que posso acrescentar um belated comentário…
é que eu tava lendo aqui sobre a formação da estratégia nas organizações e o processo cognitivo envolvido nisso (pensando em líderes das organizações principalmente) e tem um trecho do Makridakis(1990) que diz:
“We have grown up in a culture where we accept certain statements as true, though they may not be. For instance, we believe that the more information we have, the more accurate our decisions will be. Empirical evidence does not support such a belief. Instead, more information merely seems to increase our confidence that we are right without necessarily improving the accuracy of our decisions… In reality, the information found is usually redundant and provides little additional value.”
Eu acho esse tipo de pensamento muito interessante. A primeira coisa que me vem a cabeça é o Blink né? O livro todo fala sobre esse tipo de coisa, mas acho que os melhores exemplos são o da estátua e o da guerra, que as “snap decisions” eram melhores que as decisões todas “embasadas”.
Subestimamos a importância do tal “blink”, apesar dos cálculos complexos que nosso cérebro faz pra chegar no tal estalo em uma fração de segundos.
Sou contra produzir papéis e documentações que obviamente ninguém nunca vai ler, acho que precisamos simplificar os nossos registros e nossas fontes de informação para o que realmente nos interessa. Mas cá para nós, acho que algumas coisas têm que ser registradas só para “formalizar” o óbvio. Coisas que todo mundo sabe, mas que só quando estão escritas as pessoas assumem. Exemplo: quem sempre chega atrasado no trabalho – pra fazer ponte com outro post daqui do blog ;)