"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho

As últimas semanas estão muito corridas e não estou conseguindo escrever no blog. Então, para não deixar isso aqui muito parado, resolvi começar uma nova série de posts: “emails engraçados do fundo do baú”. Até criei essa categoria aqui no blog.

Bom, de forma bem resumida, são emails que eu mandei em algum momento e que eu acho engraçados para serem publicados aqui. Na verdade eu até tenho um lable no gmail para esses emails, os “Históricos” :) Nãp vou poder colocar todos os “Históricos” no blog… Mas os que eu puder eu vou soltando aqui aos poucos.

O primeiro “email engraçado” será o que eu enviei para o Manoel Carlos, novelista da Globo. Foi uma resposta a um artigo que ele publicou na Veja Rio em 28/01/2009, com o título “Por que o Leblon?”. Ele fica tentando explicar porque todas as novelas dele se passam no bairro e, putz, achei a visão tão fechada que resolvi escrever para ele. Quem quiser ler o texto todo da Veja Rio está aqui, mas um highlight que dá o clima é:

…a indagação surge como um protesto, sempre acompanhada por um rosário de razões afeitas à cidadania, a começar pela queixa contra os caminhões da TV Globo, que deixam as ruas intransitáveis, tumultuando a vida dos moradores.”

Abaixo segue o email que eu mandei para ele:

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Mais um email comentando seu texto da Veja Rio

Não sei se quem lê esse email é o próprio Manoel Carlos, mas resolvi escrever mesmo assim. E odeio essas coisas, nunca escrevo para jornal, mas dessa vez acho que precisava.

A sua coluna da Veja Rio dessa semana, “Por que o Leblon?”, chega a se engraçada de tão caricata. Me desculpe se sou agressivo, mas não consigo encontrar outra expressão. Tudo bem que você só escreve sobre o Leblon, mas até ouvir apenas pessoas do bairro é um pouco de mais, não acha? Quando divide as pessoas entre as que gostam e as que não gostam da sua predileção pelo bairro, até as justificativas são do ponto de vista de quem vive lá! Como assim?

Caro, quando as pessoas reclamam que o senhor só escreve sobre o Leblon não é porque as ruas do bairro ficam cheias de caminhão da Globo. É simplesmente porque existe vida além do Leblon no Rio. Aliás, uma vida muito interessante. Mas a Zona Sul carioca, principalmente a área que comporta Leblon e Ipanema, está se tornando uma comunidade cada vez mais provinciana e embolhada, que acha que tudo que importa acontece deste lado do túnel. Que faz piada quando a entrada do Rebouças cai porque vai manter de fora os “suburbanos”. Que não gosta da árvore de Natal da Lagoa porque os pobres espectadores deixam o trânsito “um caos”. O Rio tinha tudo para ser uma cidade super cosmopolita, mas é o contrário que está acontecendo, com moradores da elite cada vez mais tapados.

E quer saber? Sinto dizer, mas suas novelas têm um grande impacto para isso. E eu acompanhei algumas. Fui viciado em Por Amor, por exemplo. Mas sei que o cenário delas “provincia” o povo da nossa cidade, se é que esse verbo existe. Quando falam que o Rio é democrático porque “favelado e rico encontram-se na praia” é uma mentira. O pobre pode entrar onde o rico está, mas o rico não se dispõe a conviver no território do pobre. Apenas quando é cool, como ir a um ensaio da Mangueira, subir o Dona da Marta e coisas do gênero.

Eu tenho 25 anos, morador da Tijuca. Já morei no Leblon, e não quero isso de novo por nada. Não gosto de conviver num ambiente que as pessoas ficam restritas às suas próprias bolhas. Já morei em Londres também, em lugares mais simples (como Bethnal Green) e mais ricos (como Kensignton). Mas lá, não importa o lugar onde você more, os jovens transitam pela cidade. Conheço uma área maior de Londres, que morei apenas 1 ano e meio, do que o Rio, onde morei praticamente toda a minha vida. Os jovens cariocas da Zona Sul não transitam pela cidade e, sinto dizer, suas novelas só ajudam a reforçar esse comportamento.

Mil desculpas, não quero te ofender de maneira nenhuma, mas achei esse seu artigo na Veja Rio um desserviço pra nossa cidade.

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Não tive resposta nenhuma… Mas a novela que ele fez depois disso, Viver a Vida, acho que tinha um núcleo Tijucano. Era uma vidente com filha alcoólatra, é verdade, mas já é alguma coisa :)

Esse post não será dos filosóficos, acho que está mais para os de utilidade pública :) Mas queria falar sobre duas ferramentas que descobri na semana passada e que já estou viciado. Elas dão um upgrade no Gmail, acho que pode ser útil para quem lê o blog.

Rapportive: Email em tempos de redes sociais

A primeira é o Rapportive. É sensacional, um plugin para Firefox e Chrome que te mostra um perfil rápido do autor de cada email da sua Inbox. Imagem abaixo:


Putz, super útil, imagino para um milhão de situações. Algumas:

1) Faço parte de algumas listas de discussões e na maior parte das vezes não conheço as pessoas que estão respondendo aos emails. Com o Rapportive já tenho uma visão rápida sobre quem está participando das conversas.

2) Em um processo seletivo já reúne os links das páginas das pessoas que estão mandando currículos.

3) Em uma empresa que usa o servidor de emails do Gmail para assuntos corporativos é praticamente um serviço de CRM.

E de quebra ainda tira as propagandas chatas do Gmail.

Muito bom. Claro que tem um quê de big brother, mas das duas uma: ou você assume que tem muita informação sua na internet e administra isso ou finge que não está nada acontecendo e só fica sendo observado, sem observar. Confesso que prefiro a primeira opção. Se você não gostar dessa exposição toda é até bom para checar o que aparece sobre você na internet, para revisar suas configurações de privacidade em redes sociais.

Outra questão meio delicada é o acesso que os fornecedores do plugin tem à sua caixa de emails. Mas gostei da página de política de privacidade deles.

Graph Your Inbox: Email em tempos de analytics

A segunda ferramenta que descobri essa semana é o Graph Your Inbox. Imaginem um Google Analytics do seu Gmail. Pois bem, é quase isso. Você pode traçar gráficos do volume emails na sua caixa de entrada a partir de determinados parâmetros. Fala sério, um milhão de utilidades também, principalmente para empresas ou pessoas que usam o Gmail para trabalho. Fiz umas brincadeiras com a ferramenta:

1) Estou trabalhando na ANS e recebo todos os dias um alerta do Google com o que sai sobre a agência na internet. O título do email sempre contém o critério do meu alerta, então consigo filtrar todos os alertas recebidos. Se você colocar isso no Graph Your Inbox dá para gerar um gráfico automático de quantas menções a agência recebeu ao longo do tempo.


2) Como disse antes, participo de algumas listas de discussões. Uma é a de Arquitetura de Informação da Information Arquitecture Institute, outra é a de Engenheiros de Produção da UFRJ (essa não tem link porque acho que é fechada). Queria comparar em qual das duas são oferecidas mais vagas de emprego, para isso coloquei na query da busca a palavra “vaga”. A lista de Arquitetura ganhou de longe, achei engraçado.


3) Além das duas listas que disse no ponto anterior, também participo da Freecyle Rio, para doação de coisas que você jogaria fora. Queria comparar a quantidade de discussões das três listas e a de Arquitetura também ganhou. Será que estão oferecendo tantas vagas de emprego para arquitetos de informação porque o pessoal em vez de trabalhar fica mandando muito email para listas de discussão? :) Ou será que o mercado está bom e a profusão de discussões na verdade é um reflexo saudável disso? Sei lá, mas é legal poder levantar essas questões a partir de gráficos que ajudam a visualizar a informação.


Enfim, já estou viciado no Rapportive e no Graph Your Inbox.

Network effect

Mudando um pouco de assunto, mas ainda falando dessas ferramentas. É impressionante como a gente fica dependente de alguns produtos não por causa deles próprios, mas por causa dos seus complementos. Isso vai me acontecer com o Chrome por causa do Graph Your Inbox. A ferramenta só funciona no browser do Google, e eu já tinha desistido dele e voltado para o Firefox. Vou ter que continuar usando os dois ao mesmo tempo…

Mas esses caras não são bobos, essa cultura de complementos é uma realidade que estamos vivendo. Também estou atrelado ao iPod, que nem gosto tanto para falar a verdade, por causa de um speakerzinho muito bom que tenho e que… só funciona com o iPod.

Há alguns anos atrás li um livro na faculdade que falava sobre isso. Pursuing the Competitive Edge, do Robert Hayes. O cara fala:

The output of a network is not a single product, but a system of complementary products that together have the potential do make each individual product (and the network as a whole) more valuable.”

Pensem em aplicativos do iPhone. Quanto mais aplicativos úteis na App Store, mais valioso os próprios gadgets da Apple. Não é a toa que os caras estão ganhando uma baba nesse setor, o que não deve mudar tão cedo.

Mas, bom, eu que mudei muito de assunto agora. Melhor parar por aqui :)

Categorias: Papo de buteco

Acho que esse post vai ser um pouco pedante. Até porque eu não sou muito entendido nesses negócios de arte, apesar de ser apreciador. Sabe peladeiro de fim-de-semana? Que não joga porcaria nenhuma mas acha que sabe alguma coisa? Então, sou eu com arte.

Depois desta rápida contextualizada e pedindo desculpas pelo possível atrevimento que vem a seguir, gostaria de falar do Vik Muniz. Não vou falar muito, apenas estruturar um pensamento que me veio a cabeça nesta semana. Para começar devo dizer que tenho um grande respeito pelo cara. Acho o trabalho dele bem bacana, louvável essa iniciativa que ele tem com um monte de projeto social, legal que ele coloca um monte de gente dentro do museu. Acho isso tudo ótimo. Mas, enquanto apreciador de arte de fim-de-semana, tenho que dizer que não me emociono muito com o trabalho dele. Acho que pelas mesmas razões óbvias por quais normalmente ele é criticado: parece que o cara achou uma fórmula que agrada e continua repetindo ela incessantemente.

Até aí tudo bem. Não é o primeiro artista (e nem será o último) que faz isso. A questão é que o cara não me faz questionar nada quando vejo suas obras, e acho que esse é o grande barato da arte. É tão bom quando você está vendo uma obra que te leva para lugares que você nem esperava, nem imaginava. Mas o que a gente pensa quando vê as obras dele? Algo como “Pôxa, ele consegue fazer arte do lixo?”, “Pôxa, que sacada fazer isso com um prato de macarrão?”. Hum… sei lá. Não sei se é isso que espero quando vou a um museu.

Aí nessa semana uma amiga que adoro, que faz mestrado em ciência da arte (!), escrevendo dissertação em videodança (!!), me levou para uma mostra que aconteceu aqui no Rio chamada Dança em Foco. Com o risco de estar sendo preconceituoso, pode ser que eu tenha sido o único engenheiro que foi ao evento. Voltado para videodança, tenho que dizer que achei o máximo. Estou vidrado. E nem imaginava, mas é um mundo que não se trata de espetáculos de dança filmados, apesar do que o nome sugere. É muito mais do que isso. Movimentos, sons, a posição da câmera, são obras que te fazem viajar. Abrir a criatividade, pensar em um monte de coisas, criar associações inesperadas. Exatamente o sentimento que acho que a arte deve despertar na gente.

E na mostra vi um vídeo que a maravilha da internet vai me deixar postar aqui no blog. É o trabalho de um cara chamado Thierry de Mey, que vim a descobrir nesta semana que é uma das principais referências da videodança. O cara é incrível. E esse vídeo específico dele me fez lembrar de outro, um clip de música da Feist que se não me engano foi lançado em 2007. Dessa comparação eu pensei no Vik Muniz. Sei que estou sendo completamente ignorante e leviano em fazer isso, mas o blog é meu então aqui eu posso :)

Para mim o clip da Feist é como o Vik Muniz. Bonitinho, legalzinho, agradável… mas não passa disso. E o do Thierry de Mey… ah, esse é a viagem que eu espero da arte. Bom, chega de papo. Seguem abaixo os dois vídeos. Vejam se concordam ou se estou viajando.


Feist – 1234


Thierry de Mey – One flat thing reproduced (3/3)



Para quem se interessar, seguem outros trabalhos do Thierry de Mey:

Rosas Danst Rosas (meu favorito)
Love Sonets