
Há alguns anos atrás, esperando para ser atendido no dentista, li numa dessas revistas típicas de sala de espera uma coisa que ficou na minha cabeça. Desses parágrafos que são melhores que livros inteiros. Achei legal dividir aqui no blog com vocês :)
A tal idéia estava em uma entrevista com John Lasseter, chefão da Pixar. Ele explica que um dos maiores inspiradores do trabalho dele era seu irmão Jim, já morto na época mas que tinha sido um designer brilhante em vida. Uma frase de Jim ajudou a definir os rumos que o trabalho de Lasseter tomou desde o início de sua carreira:
You know, what I think makes sense in fashion design is to take a really wild fabric and then make a classic pattern or piece of clothing with it. Either that, or you take a classic fabric and make a crazy pattern with it.”
O pensamento central é que se você cria dessa forma as pessoas sempre terão alguma coisa que lhes é familiar para se relacionar com sua idéia, mesmo ela sendo nova. Se você fizer uma roupa louca com um tecido louco as pessoas não entenderão. Se você fizer uma roupa normal com um tecido normal as pessoas vão achar chato. Então misture os dois conceitos.
Simples, mas genial.
Como o pensamento influencia trabalho de Lasseter?
Quando começou a trabalhar com computação gráfica ele viu um monte de nerds gerando imagens de esferas e cubos coloridos dançando no espaço a partir de cálculos em seus softwares, acompanhadas de sons engraçados como “beep-beep-bo-beep”. Ele também achou legal, mas lembrou do seu irmão e pensou “A tecnologia é o máximo, mas as pessoas não vão entender.”.
Então em 1986 surge Luxor Jr, a lampadazinha que todo mundo conhece hoje como o símbolo da Pixar. Usando animação computadorizada em um filme com personagens e enredo, Lasseter usou uma tecnologia que as pessoas não conheciam mas em um formato que elas entenderiam. O resultado foi muito bem recebido, e assim a promissora vida da Pixar tem início. Depois vem a história que todo mundo já conhece: uma sequência de sucessos que agrada a todos, dos molequinhos aos marmanjos, passando por filmes como Toy Story, Procurando Nemo e Wall-E (uma obra-prima, na minha humilde opinião).
Mas agora tanto o tecido como a roupa estão ficando “normais”, a audiência está ficando acostumada com computação gráfica. Como manter o frescor? Lasseter, atualmente também diretor criativo da Disney, já anunciou para o final de 2009 o filme “The Princess and the Frog“. A animação é feita à mão (uma técnica já meio louca para as crianças de hoje) e traz pela primeira vez na história da empresa uma protagonista negra. Idéias novas, utilizando formatos familiares.
Aplicando no mundo real
No ano passado trabalhei no desenvolvimento de um sistema que tinha um objetivo um tanto quanto complicado: tornar agradável para os integrantes de uma equipe o ato de registrar tudo que foi feito durante o dia de trabalho. Uma espécie de diário de atividades. As informações providas por esse diário são de grande importância para a alta gerência da empresa, afinal é conhecimento do negócio que está declarado ali. Mas convenhamos: ter que escrever tudo o que você fez durante o dia, todos os dias, pode ser muito chato.
Daí comecei a pensar nos pensamentos de Lasseter. Como fazer as pessoas se identificarem com o produto que estávamos desenvolvendo? O que seria familiar para elas? Quando chegamos a conclusão pensamos que, apesar de louco a princípio, na verdade não poderia ser mais óbvio: Orkut!
Fala sério, todo mundo usa Orkut. Mesmo sem obrigação e não tendo nenhum ganho direto com isso, as pessoas adoram esses sites de redes sociais. E não é só no Brasil, as comunidades online são febre no mundo inteiro. MySpace nos EUA, Facebook na Europa, Orkut na Índia, Laiba na China e por aí vai. Começamos a estudar esses sistemas, pesquisando se havia pontos em comum que poderiam ser utilizados na busca por integração e participação dos nossos usuários.
Nesses estudos vimos que sim, essas redes apresentam diversos pontos em comum na sua forma de utilização. Os mais fortes, que viriam a definir o desenvolvimento do nosso sistema, foram os seguintes:
Acesso personalizado: ao se logar o usuário vê sua tela pessoal, com informações relevantes para si próprio e não uma página genérica igual para todos do sistema.

Feed/atualizações: todas as redes sociais trazem em suas telas iniciais atualizações que possam ser de interesse para o usuário, como mudanças na páginas de amigos e atividades recentes em suas comunidades. O usuário não precisa ficar navegando de página em página para ver as últimas novidades.

Facilidade de colaboração: em todos os sistemas é fácil inserir novas informações para a rede social, como scraps, comentários e vídeos.

Ego/Vaidade: todos os sistemas jogam com a vaidade do usuário, expondo informações como quantidade de amigos e avaliações pessoais. Todos querem aparecer bem na fita.

Tomamos essas características como a lâmpada do filme da Pixar. O produto possui todas as características importantes para a alta gerência (distante do público) mas com a roupagem de um site de rede social (familiar para os usuários). E assim o sistema foi desenvolvido, com direito até a fotinho de cada integrante da equipe.
Não foi fácil convencer que o Orkut seria um bom modelo a ser seguido para uma ferramenta corporativa. Mas agora o sistema já está funcionando na empresa há alguns meses e, modéstia a parte :) , acho que está sendo muito bem sucedido. As pessoas estão se identificando com ele, colocando suas fotos, ninguém quer parecer atrasado em seus registros e a participação está mais fácil. As informações finalmente estão sendo reunidas. Todo mundo sai feliz, equipe e diretoria.
Mas o mais importante desse blá-blá-blá todo é : quer vender uma idéia muito inovadora mas difícil? Coloque-a em uma estrutura familiar para seu público. Se a idéia for realmente boa acho que a chance de dar certo será bem maior.
***
Leia a entrevista de Lasseter na íntegra