"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Papo de buteco

Corno’s job é aquele trabalho maleta que tem em qualquer lugar e que todo mundo sempre se esquiva. Pode ser a digitalização de uma planilha impressa, a tabulação dos resultados de uma busca no Google, a passagem à mão de informações de uma base de dados para outra. Enfim, todo mundo passa por isso de vez em quando, e todo o projeto tem pelo menos um deles.

Quando um corno’s job aparece a regra geral é: passa pro estagiário.

Pois eu não sei se sou maluco, mas às vezes gosto de pegar o corno’s job para fazer. Ou pelo menos dividir com o pobre coitado que sobrou com o abacaxi. Acho importante pelas seguintes razões:

  • Como todo mundo fica tentando se esquivar às vezes o lance demora muito mais tempo para ficar pronto do que deveria. Quando a gente pega, dá um gás, e quando você vê já está pronto. Você se dá conta que grande parte da demora é mais pelo lenga-lenga de quem está se esquivando do que pela execução propriamente dita.
  • Ao fazer o corno’s job o assunto do qual o projeto se trata entra no sangue muito mais rápido. E a equipe te respeita muito mais quando vê que você fala com autoridade sobre o tema.
  • Tem corno’s jobs de projetos que são a única oportunidade para você ver de verdade as dificuldades de quem vai passar o dia-a-dia trabalhando com aquela informação.
  • Muitas vezes é na repetição do corno’s job que você vai pegar furos da sua análise. Informações que são importantes e você não tinha notado, tarefas que são mais difíceis de fazer do que você tinha imaginado.

Claro que não dá para pegar todos os corno’s jobs que aparecem simplesmente porque não dá tempo. Mas sei lá, queria defender o corno’s job. Tem seu valor.

Estou lendo o “Who’s Your City?“, do Richard Florida. O livro se vende para “classe criativa” com a chamada: How the creative economy is making where to live the most important decision of your life. Confesso que acho meio bobo esse “most important decision”, mas o livro na verdade é um estudo sobre os grande centros urbanos no mundo. Acho esse tópico muito interessante.

Pela metodologia que ele usa para identificar as “mega-regions” do mundo, o livro diz que os 40 maiores pólos são responsáveis por 66% de toda atividade econômica mundial. Em um outro momento ele diz:

National border also have less to do with defining cultural identity. We all know how different two cities can be despite being in the same state or province, much less the same country. (…) The more that two mega-regions-regardless of their physical distance or historical relantioship-have in common finacially, the more likely they are to develop similar social mores, cultural tastes, and even political leanings.

Sei que isso é um pouco forte, mas – do alto da minha ignorância – acho que é real. Quando via os indianos que iam na nossa casa em Pune, com seus super-celulares e comendo na Pizza Hut, quando vi um barzinho metido a cool em Cracóvia chamado Perestroika, quando via como em muitos aspectos o Rio é muito mais parecido com Londres do que com Campos dos Goitacazes (cidade da minha avó), chego a pensar que os grandes pólos urbanos de fato tendem a ficar parecidos. Então penso num novo profissional, um expert da dinâmica dessas “mega-regions”. Afinal elas cobrem quase 70% de toda atividade econômica do planeta. Já devem existir uns caras assim. Emprego maneiro :)

Segue abaixo a apresentação que fiz no último Encontro Brasileiro de Arquitetura de Informação. Vou ver se consigo disponibilizar o áudio também.

Como assunto relacionado, segue o link para o meu primeiro post do blog, justamente sobre Paradoxo da Escolha. Que engraçado, estava falando sobre isso em 2008, e em 2010 volto ao tópico em um congresso. Será que estou ficando repetitivo?