"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Papo de buteco

Para variar não estou conseguindo parar muito para escrever no blog, então decidi colocar dois textos do Baudelaire aqui. Não é papo cabeça, o cara falou umas paradas completamente atemporais, que servem em qualquer momento. Nem sei tanto desses clássicos, mas o Baudelaire é maneiro :)

Cada texto será em um post, sendo que esse primeiro é meu preferido. Estou completando quase um mês direto fora de casa, em quarto de hotel, e o texto tem a ver com isso. Teve uma época que cheguei a viajar com ele na carteira, meio que como uma oração. Sempre que estava longe de casa e ficava triste eu lia e me animava de novo, o texto me lembrava porque eu estava ali naquele lugar. Ele reúne o que eu acho que me esforço para aprender. Se tivesse uma faculdade para ser assim era isso que eu gostaria de estudar :)

A passagem foi retirada do livrinho “Sobre a modernidade”. Baudelaire está descrevendo um cara que ele chama de G. Segue abaixo.

Eu o chamaria de bom grado dândi, e teria algumas boas razões para isso; pois a palavra dândi implica uma quintessência de caráter e uma compreensão sutil de todo mecanismo moral deste mundo; mas, por outro lado, o dândi aspira à insensibilidade, e é por esse ângulo que G., que é dominado por uma paixão insaciável, a de ver e de sentir, se afasta violentamente do dandismo. Amabam amare, dizia Santo Agostinho. “Amo apaixonadamente a paixão”, diria G. com naturalidade. O dândi é entediado, ou finge sê-lo, por política e razão de casta. G. tem horror às pessoas entediadas. Ele possui a arte extremamente difícil (os espíritos refinados irão me compreender) de ser sincero sem ser ridículo. Poderia condecorá-lo com o título de filósofo, que ele merece por várias razões, se seu amor excessivo pelas coisas visíveis, tangíveis, condensadas no estado plástico não lhe inspirasse uma certa repugnância por aquelas que formam o reino impalpável do metafísico.

A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados imparciais, que a linguagem não pode definir senão toscamente. O observador é um príncipe que frui por toda parte do fato de estar incógnito. O amador da vida faz do mundo a sua família, tal como o amador do belo sexo compõe sua família com toda as belezas encontradas, encontráveis ou inencontráveis; tal como o amador de quadros vive numa sociedade encantada de sonhos pintados. Assim o apaixonado pela vida universal entra na multidão como se isso lhe aparecesse como um reservatório de eletricidade. Pode-se igualmente compará-lo a um espelho tão imenso quanto essa multidão; a um caleidoscópio dotado de consciência, que, a cada um de seus movimentos, representa a vida múltipla e o encanto cambiante de todos os elementos da vida. É um eu insaciável do não-eu, que a cada instante o revela e o exprime em imagens mais vivas do que a própria vida, sempre instável e fugidia. “Todo homem”, dizia G. um dia, numa dessas conversas que ele ilumina com um olhar intenso e um gesto evocativo, “todo homem que não é atormentado por uma dessas tristezas de natureza demasiado concreta que absorvem todas as faculdades, e que se entedia no seio da multidão, é um imbecil! Um imbecil! e desprezo-o!”

Queria muito escrever sobre uma campanha de marketing que estou vidrado no momento: essa “Pode ser Pepsi?”. Achei tão genial que fico pensando nisso o tempo todo. Para quem não viu segue o vídeo abaixo.

A propaganda toda é em cima de uma situação clássica. Quando chegamos em um restaurante ou bar que não tem Coca-Cola e o diálogo se repete:

Cliente: “Me dá uma Coca por favor.”
Garçom: “Pode ser Pepsi?”
Cliente: “Humm… Tem Guaraná Antarctica?”

Algumas variantes incluem “Tem água tônica?” e “Que sucos você tem?”. Fala sério, quem nunca passou por isso? E acho genial que a Pepsi tenha tido essa sacada e feito uma campanha sobre a situação, tentando convencer quem sempre fala o “Hum… Tem outra coisa?” a arriscar um “Pode ser Pepsi”. Gosto da propaganda principalmente por dois motivos:

1) Auto-deboche

Me amarro em auto-deboche :) Me passa uma sensação de segurança tão grande que penso que só pode ser muito confiante quem consegue se sacanear com tanta espontaneidade. Já penso “Esse cara é bom, não está tentando esconder nada”. E nesse caso a Pepsi vem de cara e assume que muitas vezes não é nem a segunda opção depois da Coca, pelo menos aqui no Brasil. E brinca com o fato. Se eles não tivessem reconhecido isso, ou tivessem percebido mas não quisessem assumir, nunca poderiam fazer uma campanha tentando justamente reverter essa situação. Acho muito bom.

2) Padrão social

Outra questão que me interessa muito são esses padrões sociais que emergem naturalmente, sem ninguém combinar nada. Quem convenceu todo mundo que Guaraná Antarctica é a segunda opção depois da Coca? Por que tem tanta gente usa a conta do Hotmail só para spam? Por que o Facebook virou a rede social “cool” e o Orkut “cafona”? Por que tem coisas que postamos no Twitter mas não postamos no Facebook, e vice-versa? São questões que não foram definidas por ninguém, sem regras estabelecidas, mas que de alguma forma as pessoas se organizam para seguir. Acho muito interessante ficar observando esses padrões.

***

Está tão na minha cabeça esse negócio que fui em um bar ontem e vi que todos os garçons estavam com o broche do “Pode ser Pepsi”. Enchi o saco para eles me darem um, sem sucesso. Mas hoje acabei voltando lá (calma, estou em ritmo de bota-fora do meu emprego atual com a equipe do projeto…) e, depois de mais uma pentelhação, finalmente consegui o broche! :) Abaixo o meu troféu.

Estou até com mais vontade de tomar Pepsi daqui para frente :)

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Dá para fazer uma retrospectiva do ano pelos livros lidos? Eu acho que dá. A minha retrospectiva de livros para 2010 é:

Livros lidos (e terminados)

Livros iniciados (mas não terminados)

  • The Innovators Dilemma – Clayton Christensen: Eu estava gostanto muito, mas outros livros entraram no caminho. Voltarei a ele em 2011.
  • ReWork – Jason Fried e David Hanson: Acho que não volto a ele não. Sei lá, achei muito igual ao Getting Real.
  • A Sensibilidade do Intelecto – Fayga Ostrower: É genial, mas acho que não estava no clima esse ano. Em 2011 tentarei de novo.
  • A Hora da Geração Digital – Don Tapscott: Hum… É importante, mas achei que lá pro meio fiquei com uma sensação do tipo “Beleza, entendi, já me convenceu”, e não consegui ler o resto.
  • O Relojoeiro Cego – Richard Dawkins: Não sei se sou burro, mas achei muito chata a leitura. Não tive saco de continuar.
  • Flow: The Psychology of Optimal Experience – Mihály Csíkszentmihályi: Fico até com vergonha de dizer que não consegui terminar o livro, porque todo mundo fala tanto dele. Talvez eu não estivesse no clima esse ano, não sei. Mas não estava achando isso tudo que ficam falando. Tentarei voltar a ele em 2011.
  • Fascinate – Sally Hogshead: Foi uma compra de impulso, de promoção de site. Pensei que talvez fosse me ajudar no artigo que escrevi sobre Arquitetura de Escolha, mas achei meio bobo.

Comprados e nem iniciados

O que estou lendo agora

The Moral Animal – Robert Wright: Estou viciado já… De mudar como você olha tudo. Muito provavelmente vai entrar no meu Top 5.