"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Economia, Livros

Caraca, estou escrevendo quase todo dia… Também está acontecendo tanta coisa que acho que a nossa cabeça acaba entrando nesse ritmo.

Bom, anteontem saiu na Folha (quinta-feira 2/10) que o “Lula prioriza manutenção do crescimento”. Parece que o governo deseja manter o crescimento do PIB de pelo menos 4% em 2009 e 2010, mesmo com a crise do mercado financeiro. O artigo deduz que manter o crescimento será importante para que Lula termine o mandato com sua popularidade em alta e aumente as chances de eleição da Dilma.  O nosso Banco Central já está se mexendo, diminuindo os compulsórios – dinheiro que os bancos são obrigados a depositar no BC para cada transação feita por eles. Além disso, está em estudo a possibilidade de leilão de dólares para exportadores, a liberação de R$5bi para agricultura e a capitalização do BNDES para financiamentos destinados a investimentos de longo prazo. Tudo para aumentar a liquidez no mercado, porque é certa (pelo menos no curto prazo) a redução do crédito disponível para empréstimos. Os investidores mundiais vão ter que apertar os cintos por um tempo, e a gente tem que estar preparado para esse possível momento de vacas magras externo. O fato de termos acumulado US$200bi de reserva cambial nos últimos anos vai nos ajudar a atravessar o período.

Eu tenho cá para mim que essa redução de crédito para o Brasil será temporária. O pacote americano já saiu (foi aprovado ontem), daqui a pouco provavelmente sai um (ou mais de um) europeu, e cedo ou tarde o mercado vai se assentar. Nesse momento, quando tudo estiver um pouco mais calmo, quem tiver conseguido se segurar na boa vai voltar a receber investimentos de novo. Nem todos “emergentes” fizeram o dever de casa de acumular reservas nesses últimos anos como nós fizemos, então quando os investidores voltarem a investir vão dar preferência à economias mais estáveis, sobrando mais para a gente. Pelo menos essa é a previsão de um leigo. :)

Mas não é disso que eu queria falar nesse post. Na verdade eu quero falar dessa relação de popularidade alta do Lula com crescimento da economia. Se já tem tanta gente melhor agora do que quando o Lula entrou, e não é por causa dessa crise financeira que todo mundo vai sair falindo, por que o presidente continua tão preocupado em manter o crescimento nesses dois próximos anos? Não seria mais prudente lutar pela estabilidade, garantindo que quem ganhou nesses últimos oito anos não saia perdendo? Isso já não seria suficiente para manter a popularidade dele alta até o final do mandato?

Não necessariamente, pelo menos se seguirmos a teoria econômica. Como somos um dos “países em desenvolvimento” espera-se que um dia sejamos classificados como “país desenvolvido”, mas essa classificação talvez não seja a ideal para explicar a situação de um povo. Pelos economistas, o que aumenta a sensação de satisfação de uma sociedade não é estar bem, mas estar no processo de melhoria, ou estar sempre “em desenvolvimento”. Um trecho famoso do Riqueza das Nações, de Adam Smith, puxou esse pensamento:

É no estado progressivo da sociedade, quando esta avança para a maior aquisição de riquezas, e não quando alcança a medida completa de riquezas de que é suscetível, que verdadeiramente a condição … do grande conjunto do povo, parece mais feliz e agradável; é árdua no estado estacionário, e miserável no estado de declínio. O estado progressivo é, para todas as diferentes ordens da sociedade, na realidade o mais vigoroso e feliz; o estado estacionário é insípido; e o de declínio, melancólico.”

O Lula não é bobo. Ele sabe que crescer e estabilizar não é suficiente para continuar com a bola alta.  É preciso continuar crescendo, sempre. E um crescimento disseminado por grande parte da população, não apenas nas faixas mais favorecidas da pirâmide. Seja aqui, seja em Angola, seja na Suécia. Mas por quê?

Bom, cada um tem uma opinião, economia não é uma ciência simples de ter suas teorias comprovadas como na física. Mas li esse ano um livro muito interessante que trata basicamente desse aspecto: The Moral Consequences of Economic Growth (As Consequências Morais do Crescimento Econômico, em uma tradução livre), de Benjamin M. Friedman. Para ser sincero a leitura não foi de toda prazerosa, mas o primeiro terço do livro é sensacional. Friedman argumenta durante todo o texto que o crescimento econômico traz mais que benefícios materiais. Ele explica que o crescimento, além de aumentar a qualidade de vida, é a chave para tornar as pessoas mais abertas, democráticas e tolerantes.

A idéia central do livro é que a pessoas, para se sentirem bem, precisam sempre perceber uma melhoria em suas vidas. Para fazer essa avaliação é utilizado um dos dois referenciais: ou elas comparam se estão melhores do que estavam anteriormente ou olham se estão melhores em comparação com as pessoas à sua volta.

Se um país oferece constantemente a possibilidade de crescimento para todos – ou pelo menos para grande parte da sua população – a probabilidade de nos sentirmos satisfeitos é maior pois estaremos nos comparando com nosso próprio passado. O fato de mais pessoas estarem se sentindo satisfeitas sem precisar prejudicar os outros coloca todos no mesmo clima, de andar para frente, colaborando, fazendo parcerias e curtindo o caminho. Daí as posturas de abertura, tolerância e democracia nas pessoas.

Em um momento de declínio ou estagnação, quando um país não consegue oferecer muitas possibilidades de crescimento para sua população – ou essas chances são dadas a muito poucas pessoas – a única maneira de nos sentirmos bem é quando nos comparamos com os outros. Ao usarmos esse referencial, se estamos melhores do que as pessoas à nossa volta, abrimos espaço para a tradicional puxada de tapete. É maior a probabilidade de se criar um sentimento generalizado de egoísmo, mágoa e corrupção.

Como disse antes, é só uma teoria. Mas pelo menos no nosso caso acho que cai como uma luva. E explica até conceitos tão cristalizados na nossa cabeça, como o pejorativo “jeitinho brasileiro”. Afinal de contas pode ser que ele não se trate de um comportamento exclusivo nosso, mas de qualquer povo onde as oportunidades de crescimento não são distribuídas de maneira igualitária e a única maneira de avançar seja puxando o tapete dos outros. Ou dando um “jeitinho”. Se isso for verdade, e entrarmos em um ciclo constante de crescimento igualitário, acho muito provável que o “jeitinho” ruim vá diminuindo e só fique o bom, ligado à criatividade e inovação. Nesse ambiente, como dito antes, as pessoas sentem-se mais à vontade, tranqüilas e com maior auto-estima. E, por fim, a popularidade do governo continua em alta.

Putz… esse testamento todo só para tentar explicar porque continuar crescendo é tão importante para o Lula. :)

À primeira vista o programa do Multishow pode parecer, digamos, um tanto quanto frívolo: uma ex-vj da MTV tomando sorvete de casquinha, indo a shows de bandas independentes e visitando lojas de cacarecos em Nova York. Até o jeito como eles próprios se descrevem no site do programa não ajuda muito:

É inusitado?
É divertido?
É em Nova York?
Então é assunto para Didi Wagner!”

Acho que o slogan não faz jus ao programa porque ele é muito mais que isso. Olhe de novo: em um capítulo Didi nos apresenta a uma loja especializada em campanhas políticas, a EXIT9, onde é possível encontrar “papel higiênico e até aromatizante de carro com cara de candidatos”. Em outro conhecemos o “Rooftop Film Festival”, um festival de cinema independente itinerante que acontece em diferentes terraços (!?) da cidade.  Em um terceiro assistimos a diferentes manifestações culturais coletivas, em que grupos de pessoas se reúnem para fazer arte unindo seus diferentes pontos de vista. Tudo isso na Big Apple.

Ainda está achando bobo? Pois eu acho interessantíssimo!

Em todos os programas vejo que a cidade transborda de criatividade, e sinto um pouco o clima que sentia quando eu estava em Londres. Pode ser “divertido” e “inusitado” sim, como o slogan do programa diz, mas acima de tudo é inteligente e até estratégico.

Cada vez lemos mais matérias e artigos falando da crescente importância que as “cidades globais” estão assumindo ao conectar os mercados mundiais. Em janeiro desse ano a Time teve uma capa excelente com título “A Tale Of Three Cities”, focando em Nova York, Londres e Hong Kong – ou Nylonkong, como eles chamaram. Um parágrafo da matéria dá o clima da edição:

Connected by long-haul jets and fiber-optic cable, and spaced neatly around the globe, the three cities have (by accident — nobody planned this) created a financial network that has been able to lubricate the global economy, and, critically, ease the entry into the modern world of China, the giant child of our century. Understand this network of cities — Nylonkong, we call it — and you understand our time.”

E é isso mesmo que acho que temos que fazer: tentar entender essas capitais mundiais. Principalmente nós brasileiros, parte de uma economia jovem, que temos tanto a aplicar em nossos próprios pólos urbanos. Infelizmente a realidade dessas cidades ainda é muito distante para a média dos brasileiros, por isso acho fundamental termos programas como esse do Multishow, que servem como referência e inspiração para adolescentes, universitários e recém ingressos no mercado de trabalho. Essa geração (que aliás me inclui) formará a base da nossa economia nos próximos 20 anos, e qualquer fonte de informação que nos ajude a estar mais conectados com o resto do mundo só pode ser bem vinda.

O programa não fala de super-empresários e banqueiros – o que no momento seria até uma bola fora. Mas temos que parar com essa onda de subestimar a importância das artes e da cultura para o desenvolvimento social e econômico dos lugares. Essa idéia de separar “comida” de “diversão e arte” é antiga e obsoleta. Já está na hora de entendermos que mais “diversão e arte” atrai mais “comida”, mais negócios, mais grana. É um ciclo. Como também escrito na matéria da Time:

Great cities, of course, are about more than money and finance. They are messy agglomerations of talent and culture. That is how they attract men and women in the financial sector who could choose to live anywhere.”

Não é a toa que essas três cidades, pólos financeiros, são também onde acontecem as maiores exposições, onde vemos mais artistas independentes e mais jovens empreendedores. Exatamente o tipo de pessoa que Didi nos mostra no seu Lugar Incomum.

Então, mais uma vez afirmo: esse programa é tudo, menos uma besteira. E digo mais: o Multishow deveria investir em outros Lugares Incomuns também, como Londres, Tóquio, São Paulo… Já pensou? Eu com certeza os assistiria.

Lugar Incomum
No Multishow, toda quarta-feira às 21.15h, reprise nos sábados às 16.30h
Apresentado por Didi Wagner

Categorias: Economia, Web

Entendo que as eleições dos EUA afetam o mundo inteiro, afinal queiram ou não eles ainda são a maior economia do planeta. Sem dúvida o presidente americano é um dos líderes mundiais que mais têm impacto em nossas vidas. Mas… bom, é UM dos. Não é O líder. Ou é? Prefiro acreditar que não.

Aí vem a Economist e monta uma “eleição mundial” para próximo presidente dos EUA. Sei que é um exercício de imaginação e tal, mas essa de “what if the whole world could vote” e “global electoral college”, hummm, não sei não… Gosto da revista, mas às vezes acho que eles forçam a barra um pouco demais. Tenho a impressão que eles seguem firmemente a idéia de que ‘a melhor forma de prever o futuro é criá-lo’. E o que me deixa mais ressabiado é que fica claro que a revista sabe a influência que têm sobre muita gente no mundo, e fica jogando com isso.

Acho que eu estou meio perseguido. Logo eu que estava tão otimista até o último post… Não, estou brincando, ainda estou otimista. Mas que fico com o pé atrás às vezes com a Economist isso fico…

Peraí. Será que eu estou virando vermelhinho??  :)

(Obs: Só como curiosidade, quando escrevi esse post o Obama estava ganhando com 75% dos votos aqui no Brasil. Aliás, a parte de azul no mapa aí de cima são os lugares onde o Obama é preferido até o momento. Engraçado, né?)