"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho

Esse post é rapidinho, para quem passar aqui entre os feriados de Natal e Ano-Novo.

Está acontecendo uma coisa muito legal na internet. Já foi a época que a tecnologia de vídeos online era só utilizada para ver “Tapa na Pantera” e afins. Agora é possível aprender sobre um monte de coisas de forma rápida e agradável, através de vídeos disponibilizados gratuitamente em sites que vão muito além do Youtube. E o que é mais interessante é que alguns vídeos não estão sendo apenas adaptados para a internet, na verdade muitos deles estão sendo produzidos especificamente para o formato web. Mérito dos softwares de animação, equipamentos de filmagem e gerenciadores de conteúdo para sites cada vez mais acessíveis,  combinados ao advento das redes sociais online. Juntas essas inovações estão tornando possível a proliferação desse tipo de mídia.  

Claro que depois de ver os vídeos a gente se esquece de quase tudo :), mas alguma coisa sempre fica.

Decidi reunir alguns exemplos aqui, para quem tiver um tempinho livre nesses dias de festa.

Leveraging and deleveraging

Alavancagem financeira, empréstimos, “dinheiro que não existe”. Às vezes a gente lê no jornal “A empresa X estava muito alavancada”, mas muita gente não sabe direito o que isso significa. Pois aprenda agora, em apenas 8mins.

Mais vídeos de Marketplace.

Congo

Quem sabe alguma coisa da história recente do Congo levanta a mão! Fala sério, difícil, né? Essa é daquelas notícias que saem no Jornal Nacional, a gente escuta, fica chocado, mas depois esquece. E o pior: não consegue juntar as notícias que saem sobre o assunto umas com as outras. Pois não fique mais boiando, assistindo a essa animação da Economist de 4mins.


 
Mais vídeos da Economist.

China e o Natal dos EUA

Esse é mais engraçado, mas importante do mesmo jeito. Dá uma idéia da importância dos produtos chineses para a sociedade americana e, simetricamente, das importações americanas para a economia chinesa. Podemos entender porque uma crise nos EUA tem um impacto tão grande no gigante da Ásia e, conseqüentemente, no mundo todo – lembrando que ambos EUA e China são os dois maiores parceiros comerciais de diversos países, incluindo o Brasil. Uma lição em menos de 2mins.

Mais vídeos da Good.

Como você imaginaria uma propaganda de diamantes no momento em que a economia mundial está prestes a entrar em recessão? Num cenário em que todos estão cortando gastos, economizando e gastando apenas com o essencial, como seria anunciado um bem tão supérfluo como uma jóia?

Uma propaganda que saiu na Economist da última semana responde à essas perguntas de maneira genial. Aliás, o anúncio é uma aula de economia, pelo menos pela minha percepção :)

Segue o texto do anúncio:

FEWER, BETTER THINGS.

Our lives are full of things. Disposable distractions, stuff you buy but do not cherish, own yet never love. Thrown away in weeks rather than passed down for generations.

Perhaps things will be different now. Wiser choices made with greater care. After all, if the fewer things you own always excite you, would you really miss the many that never could?

- The De Beers Family of Companies

Atenção para a ironia: o anúncio está levantando a bandeira de redução do consumismo fútil, mas foi veiculado em um dos maiores símbolos do capitalismo no planeta. Demagogia marketeira?

Pode ser, mas eu acho que o texto faz o maior sentido e não acho incoerente ele estar na Economist.

As pessoas tendem a considerar o materialismo idiota como uma das mazelas inevitáveis do sistema capitalista. Engraçado que eu nunca associei essa vontade incessante de acumular bens com o capitalismo, essa postura sempre me pareceu mais mercantilista. Para mim capitalismo é sobre comércio, trocas, transferências, circulação de valor.

Já conversei sobre isso com alguns amigos, uma proposta de teoria econômica a ser maturada e divulgada daqui a algumas décadas :). Um pensamento que estimule o consumo focado em experiências de bem-estar, em que a relação custo-benefício fosse melhor observada pelas pessoas na hora de se escolher onde e como gastar dinheiro. Em resumo: uma proposta para que nós, consumidores, passássemos a gastar nossa grana extra mais no que realmente nos dá tesão e menos no que não nos faz muita diferença.

Existe um monte de pesquisa falando sobre isso, mas o comportamento continua se repetindo o tempo todo: colocamos dinheiro em coisas que não nos satisfazem tanto. Antes de tê-las sempre as queremos muito, quando conseguimos vemos que elas não têm tanta graça assim. Será que é tão difícil aprender com nossas experiências prévias o que nos deixa felizes ou não? Nessas pesquisas normalmente os países mais ricos possuem um grau de felicidade maior que os países pobres, mas a partir de um certo nível o crescimento econômico deixa de aumentar o grau de satisfação do povo. É o momento em que possuir mais bens materiais já não surte muito efeito.

Vejam se isso também não vale para as nossas vidas. Entendo que algumas pessoas têm tesão em carros, perfumes, sapatos, o que quer que seja. Mas já notaram que a partir de um certo valor o produto mais caro já não traz uma satisfação muito maior assim? Parece que para cada coisa existe um linha de saturação de satisfação, e nessa teoria (ingênua) que proponho a grana que não seria gasta além dessa linha seria aplicada em outras coisas nas quais ainda não saturamos a nossa satisfação.

Por exemplo: queremos comprar um carro. Confortável, que dê um gás no nosso status e que não vá nos deixar na mão. Temos grana suficiente para comprar um no valor de 5$. A compra desse carro é importante para movimentar a economia, pois assim fortalecemos a cadeia de valor ligada à indústria automobilística.

Mas depois pensamos melhor e vemos que um carro similar, mas de custo 4$, iria nos trazer a mesma satisfação que o carro mais caro. Ou a satisfação extra que esse 1$ de diferença nos traria poderia ser maior se aplicássemos em outra coisa. Então compramos o tal carro de 4$ e com o 1$ fazemos uma viagem bacana, até pagando para aquela pessoa que queremos perto mas que não teria condição de pagar pelo passeio ir com a gente. No final das contas você ainda terá um carro, mas terá também uma viagem que lembrará para o resto da vida, além de ter feito seu dinheiro circular por mais mercados diferentes.

 

Indo mais longe ainda, você vê que um carro de 3$ na verdade também traria uma satisfação bem razoável. Então você se decide por ele, faz a viagem (bem acompanhado) e ainda fica com grana para gastar com mais jantares fora, shows, cinemas…

 

custo32

 

Agora imagine esse pensamento replicado durante toda nossa vida, com todo mundo que tem dinheiro extra para gastar pensando assim? Pode até parecer que no final das contas a grana total pelo mercado seria a mesma, mas isso não é verdade. A circulação de valor cria mais valor. Com as trocas mais pessoas têm acesso a riqueza e, por conseqüência, mais acesso à educação. Com mais gente educada mais inovações poderão acontecer e serão elas que aumentarão o nível de riqueza da sociedade.

Não estou dizendo que é ruim desejar ter o mais caro possível. Esse pensamento é importantíssimo para que haja inovação e avanço. Mas sempre existirão pessoas com muito tesão em coisas específicas, que de qualquer forma vão querer possuir o mais caro – seja pela qualidade do bem em si, seja pela satisfação de ter o que os outros não têm (os bens posicionais). Mesmo que a gente abra mão do carro de 5$, sempre existirá demanda para ele. E para conquistar esse mercado as empresas continuarão competindo sempre para melhorar a qualidade de seus produtos. Então, como disse antes, acho que devemos focar nossas grana extra apenas no que nos satisfaz de verdade, seja uma viagem, um curso, futebol, ou até em juntar dinheiro. O ganho será triplo: forçamos o avanço do nicho, não deixaremos riqueza parada em bens que não estão trazendo prazer para a sociedade e teremos mais dinheiro para consumir em diferentes mercados.

Menos coisas, mas melhores :)

Agora, o mais legal disso tudo, é que até Adam Smith já levantava essa bola. Olha o que ele mesmo disse no livro The Theory of Moral Sentiments:

How many people ruin themselves by laying out money on trinkets of frivolous utility?”

Gostaria muito de ouvir os furos e questões dessa idéia, se alguém quiser colaborar.

***

Acho que esse será o último post antes do Natal, então boas festas para todo mundo que estiver lendo.

Categorias: Economia

Na edição internacional da Newsweek de 27 de Outubro desse ano foram publicados dois artigos excelentes que formam o tema do que vou falar nesse post.

O primeiro texto, de Robert J. Samuelson, fala de como “bons tempos alimentam maus tempos, e vice-versa”. Se as coisas estão boas demais é provável que elas piorem, porque sucesso inspira excesso de confiança. Se a situação está difícil pode esperar que ela vai melhorar, porque normalmente a crise gera oportunidades e progresso. E assim o ciclo continuaria indefinidamente.

No próximo artigo Lawrence Lessig, como que complementando o anterior, fala que a discussão toda no mercado financeiro hoje não deveria ser “regular ou não regular”, e sim “regular pensando nos ciclos”. Uma nova maneira de gerenciar riscos, tendo na cabeça que altos e baixos são inevitáveis e até saudáveis. Como rodinhas na bicicleta de uma  criança, que no caso seriam a regulação do mercado. Se a criança está fazendo muita estripulia colocamos as rodinhas, quando está mais tranquila tiramos as rodinhas. (atenção que essa metáfora é minha, não do cara)

Eu achei genial porque lendo assim parece óbvio, mas acho que não tem muita gente falando em soluções desse tipo. Em toda crise as pessoas se perguntam “Qual o furo nos modelos que estávamos utilizando?”, sempre deixando implícito que alguma coisa errada foi feita. Lessig sugere que talvez o furo não esteja no modelo e sim na falta de senso de oportunidade. Não existe modelo conveniente para todos os momentos, inclusive porque a utilização do mesmo por todo mundo altera a própria realidade que ele está tentando, bem, modelar :)  Por isso temos que ajustá-lo tendo em mente as altas e baixas dos ciclos econômicos. 

Regulação, altos e baixos

Não dá para negar a elegância da idéia de uma regulação anti-cíclica, que equilibre as variações de otimismo e pessimismo do mercado, por isso fiquei empolgado. Mas se olharmos para trás veremos que na verdade isso já acontece naturalmente, principalmente se considerarmos os EUA de 1860 para cá.

Na segunda metade do séc. XIX, após a Guerra da Secessão, os americanos se focaram na reconstituição de sua economia. A industrialização do país deu um salto considerável e todo o território foi “trilhado”, no que ficou conhecida como a bolha das Estradas de Ferro. Entre avanços e tropeços a regulação do mercado financeiro deles foi sendo aliviada e o fato é que em 1929 a bolsa estava no auge da empolgação. Deu no que deu.

Com a quebra da bolsa de Nova York as coisas mudaram de figura. A mão visível do governo ficou mais forte, como que para organizar a casa, e por fim o acordo de Bretton Woods foi sedimentado. O mercado ficou então mais comportado.

Mas em 1971 o mercado já estava domado demais e o acordo acabou sendo desfeito, trazendo aos poucos o clima de oba-oba de volta. Entre avanços e tropeços a regulação do mercado financeiro deles foi sendo aliviada e o fato é que em 2008 a bolsa estava no auge da empolgação. Deu no que deu. (sim, rolou um ‘ctrl+c,ctrl+v’ aqui).

Agora, como era de se esperar, já estão falando em “aumentar a regulação do mercado” novamente, e até usando a expressão “Bretton Woods II“. Mais uma vez o ciclo recomeça…

Fiz um esqueminha para facilitar a visualização de processo, onde contraponho as curvas “Empolgação” com “Regulação”.  - o blog é meu e eu posso usar os termos bobos que eu quiser :)

 

 

Ou seja, como digo antes, pelo visto a tal a regulação anti-cíclica já acontece naturalmente. Mas provavelmente se aceitássemos mais harmoniosamente a existência dos ciclos e gerenciássemos melhor o processo ‘criação > destruição > criação’ as crises seriam solucionadas mais rapidamente e com menos blá-blá-blá.

A importância das bolhas

Toda bolha é difícil, mas também fundamental para avançarmos como sociedade. As principais bolhas do séc. XIX nos EUA, a dos Telégrafos e a das Estradas de Ferro, deixaram o país todo conectado para a comunicação e para o transporte. No século XX tivemos a quebra da bolsa em NY, que acabou resultando na consolidação da infra-estrutura financeira americana. Na virada do milênio a bolha das “.com” deixou quilômetros e mais quilômetros de fibra óptica espalhados pelo mundo, o que barateou o acesso à internet que temos hoje. Em todas as bolhas o mercado viu bancos e empresas quebrarem com a secura de crédito, mas os resultados dos investimentos feitos no momento de otimismo ficaram para população.

Nos momentos em que a regulação está em queda e a empolgação em alta é quando desenvolvemos as tecnologias que ficarão após a bolha (telecomunicações, transportes, finanças…). No momento em que empolgação começa a entrar em queda e a regulação é apertada, consolidamos essas inovações.

 

Por isso deixar o mercado fluir entre altos e baixos é importante pra gente, sendo uma perda de tempo perseguir uma regulação ou modelos ideais para todos os momentos.

Não sei ainda qual o resultado da crise atual, mas chutaria que vai ser um mundo multipolarizado, com poder redistribuído entre mais países. Uma base sólida para que os frutos das bolhas anteriores  - meios de comunicação, sistemas de transporte e instrumentos financeiros avançados - sejam aproveitados por mais gente.

O perigo do modelo

Romântico né? Diria até meio utópico :) Mas temos que tomar um grande cuidado se os agentes financeiros realmente começarem a buscar uma regulação anti-cíclica. Não poderemos deixar que o pânico tome conta antes do necessário, senão alguns pulos de inovação vão deixar de existir sempre que alguém quiser colocar as rodinhas na bicicleta antes do momento certo. As bolhas ainda ocorrerão, mais seus resultados serão menos dramáticos, tanto os positivos como os negativos.

Então é isso… Uma teoria maluca de regulação para as regulações :) Um aperto periódico do mercado, que leve em conta os ciclos de altas e quedas mas que seja mais reativo que proativo. Será que rola? Ou é muita viagem? :)