"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Papo de buteco, Web

akinator

Mercado em crise, conflitos na Faixa de Gaza, crise energética entre Rússia e União Européia… Sei que tem um monte de problemas sérios acontecendo, então pode ser que o tema desse post vá parecer um pouco bobo para o momento. Mas está sendo mais forte que eu… Tenho que falar…

AKINATOR!!! :)

E não sou só eu que estou pensando nisso. Olhem abaixo a tendência de busca dos últimos 30 dias no Google Brasil para o site do jogo, contra os termos “Gaza”, “Russia” e “Crise”. 

tendencias

Na boa, quem não conhece ainda por favor entre agora e jogue, se não talvez você não entenda minha embasbacação. Basicamente o Akinator é um jogo “Perfil” moderno: você pensa em uma pessoa (famosa de preferência), o site te faz até 20 perguntas e, a partir das suas respostas, descobre o nome que você pensou. Falando assim parece idiota, mas o índice de acertos do gênio é bizarramente alto.

Decidi escrever sobre o Akinator aqui porque, além do troço ser muito divertido, ainda é inteligente pra caramba. Exemplo perfeito de inteligência coletiva bem aplicada à abrangência da internet. O site tem por trás um algoritmo que o deixa mais inteligente a cada jogo, tanto quando acerta como quando erra. Quando ele adivinha corretamente as perguntas utilizadas se reforçam para determinada pessoa, quando ele não acerta ele te pergunta em quem você estava pensando. Nessa ele fica mais inteligente ainda, pois adiciona uma nova pessoa à sua base de dados. Como o esquema é engraçado cada vez mais gente joga, consequentemente mais rápido ele aprende, e o fenômeno está criado.

ciclo_akinator

Agora imaginem no potencial dessa idéia: um monte de gente alimentando bases de dados com seu próprio conhecimento, por livre e espontânea vontade, simplesmente porque está se divertindo enquanto faz isso.

Bem… Já pensaram nisso :) E a tendência está cada vez mais forte. Abaixo listo alguns sites onde a idéia está sendo explorada, vocês verão que o movimento está muito mais avançado do que imaginaríamos.

FOLDit :: Solve Puzzles For Science
O FOLDit é uma espécie de “Tetris” moderno, que está ajudando a desvendar um dos principais desafios da biotecnologia: a lógica por trás da formação de proteínas. Os jogadores do FOLDit, ao criarem virtualmente novas cadeias protéicas, na verdade estão apoiando cientistas no desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas. Com os resultados desse projeto já foram publicados diversos artigos nas revistas Nature e Science.

GWAP :: Games With a Purpose
O lema do GWAP é ousado: ajude o mundo enquanto você joga. O site potencializa a idéia de tags e segmentação da internet, observando padrões no nosso comportamento que podem ajudar na organização das informações espalhadas pela web. O jogo mais famoso deles, o ESP, rotulou mais de 50 milhões de fotos com palavras-chaves, depois deu origem à própria ferramenta do Google que está ajudando a tagear imagens da internet. Os cálculos do Google podem ranquear textos, mas não podem dizer o conteúdo de uma foto ou de um vídeo. Nossos olhos podem, e essas ferramentas se utilizam disso.

reCAPTCHA
Esse é sensacional. Você já viu aquelas palavras distorcidas que aparecem em alguns sites quando estamos confirmando uma operação, como um cadastro por exemplo? Pois bem, essas imagens com as palavras tortas são chamadas de “captchas”. Esses sites as utilizam porque computadores espiões não conseguem ler esse texto, então quando você responde corretamente você prova ao sistema que é humano. O reCAPTCHA utiliza esse recurso para identificar fragmentos de textos em manuscritos antigos que estão sendo digitalizados, mas que não foram reconhecidos pelo computador por estarem muito distorcidos. Ele coloca esse código junto com outro captcha real em formulários de cadastro espalhados pela internet. A segunda imagem seria o verdadeiro “teste de humanidade”. Ao decifrar corretamente as duas palavras para confirmar a operação você prova que é humano e ao mesmo tempo ajuda a digitalizar o tal manuscrito, sem nem se dar conta. O sistema já ajudou a transcrever mais de 1 bilhão de palavras, e está sendo utilizado agora para digitalizar 130 anos de edições antigas do The New York Times.

Fala sério… Esse mundo está ficando louco. Mas eu me amarro nessa idéia :)

Da próxima vez que você ficar que nem um maluco jogando no Akinator não sinta-se tão culpado. Pense que você está ajudando na disseminação da idéia de inteligência coletiva aplicada a jogos e serviços na internet. :)

Categorias: Economia

Vi no blog do Alexandre Schwartsman hoje, achei tão absurdo que resolvi colocar aqui também. Uma pesquisa feita pelo Banco Mundial com a PricewaterhouseCoopers relaciona quantas horas por ano uma empresa de médio porte de um país deve trabalhar para pagar seus impostos. Eu já sabia que o peso tributário aqui era muito grande, mas não tinha noção que fosse tão desproporcionalmente maior que no resto do mundo. Ficamos no topo dos que precisam de mais horas trabalhadas para pagar seus tributos, em uma lista de 181 países! Surreal….

Abaixo coloco uns gráficos para ilustrar o drama, mostrando o total de horas por país ou região em um ano. Espero que falem bastante sobre isso nesse ano de crise, para ver se essa Reforma Tributária sai logo.

Brasil x Média por região
media_regiao

Brasil x Ricos

ricos

BRIC’s

bric

10 Maiores (que turma…)

10maiores1

Categorias: Economia

isla

Por conta dos ataques israelenses os holofotes da imprensa encontram-se hoje sobre Gaza. Israel organizado, mas desproporcionalmente forte. Palestinos fracos, mas imprevisivelmente violentos. As perguntas inevitáveis sempre vêm à cabeça: “Quem está certo? Quem está errado?”.

Difícil responder. Mas quando tiramos o olhar emotivo da situação e observamos como os palestinos vivem nesse pedacinho de terra, percebemos que a situação se repete de forma parecida em vários outros bolsões de pobreza no mundo. Quando olhamos bem a vida dessas pessoas vemos que muito dali está também no Iraque, no Irã, nas favelas brasileiras e nos banlieues parisienses. Traços que, reunidos, formam um prato cheio para formação de grupos rebeldes e atitudes extremadas.

Listando pontos que vemos repetidos nesses lugares:

  • Falta se saneamento básico, poucas oportunidades de emprego e educação, escassez de alimentação e remédios, frágil estrutura básica hospitalar, de transportes e de segurança social;
  • Idade média da população baixa;
  • Sentimento de frustração potencializado pelos avanços dos meios de comunicação (hoje é mais fácil saber o que estamos perdendo, ou deixando de ganhar, quando olhamos pela televisão e pela internet a vida das pessoas em outros países).

Não tem como não criar conflito. E não é nem preciso ter um motivo “nobre” como religião por trás: pessoas frustradas e humilhadas encontrarão diferentes razões para se envolver em atividades violentas, na esperança de conseguir assim o que a realidade não consegue lhes oferecer.

Thomas Friedman fala sobre isso no manjado, mas que eu me amarro :), “O Mundo É Plano”:

Humiliation is the most underestimated force in international relations and in human relations. It’s when people or nations are humiliated that they really lash out and engage in extreme violence…

In the old days, leaders could count on walls and mountains and valleys to obstruct their people’s view and keep them ignorant and passive about where they stood in comparison to others. You could see only to the next village. But as the world gets flatter people can see for miles and miles.”

newsweekComo solucionar a questão? Entra ano, sai ano, aparece um monte de gente com várias receitas mágicas. Se fosse fácil já estaria resolvido, né? Mas li algumas coisas legais no final do ano passado, principalmente na edição especial de fim de ano da Newsweek - com o humilde título “How to fix the world”.  A revista reuniu pensadores importantes do mundo para discutir as questões fundamentais de 2009, sendo que um dos tópicos principais era o avanço da violência nos países islâmicos. Pensei que algumas das idéias talvez pudessem ser replicadas em outros bolsões de miséria, como nossas favelas por exemplo, então aproveitei para reunir os pontos mais relevantes nesse post:

FORTALECIMENTO DA ECONOMIA E MICROCRÉDITO

Esse ponto foi levantado por Paul Brinkley, no artigo “Want to save Iraq? Invest.“. Ele explica que muitos dos insurgentes que atacam o exército americano por lá não o fazem por ideologia, mas porque estão sendo pagos pelos líderes antiamericanos do país. O desemprego no Iraque bateu em 50%, muitos chefes de família não têm outra oportunidade de receita fora a contravenção. Brinkley argumenta que a melhor saída para desmantelar esses exércitos paralelos não é a força bruta, mas sim a criação de empregos através de investimentos diretos na região. Além de tirar soldados do crime, seriam reduzidas as barreiras culturais ainda existentes entre americanos e iraquianos. Através também do microcrédito, que já vem dando certo em tantas outras regiões do mundo, pequenos negócios poderiam proliferar, secando ainda mais a fonte de jovens frustrados para os exércitos dos radicais islâmicos.

FORTALECIMENTO DAS MULHERES

No artigo “To fix Islam, Start from the inside“, escrito por Irshad Manji, é levantado um ponto importante:

Educate a boy and you educate only that boy. But educate a girl and you educate her entire family.”

Claro que as mulheres islâmicas vivem uma situação muito mais delicada que as do mundo ocidental, mas é fato que meninas educadas terão um papel decisivo na formação de crianças e no planejamento familiar. Correntes afirmam que a legalização do aborto tem consequências na redução da violência, mas um direcionamento de projetos sociais voltados para mulheres, mesmo sem a alternativa do aborto, talvez tenha um resultado parecido.

BALANCEAMENTO EXTERNO

Essa foi a sugestão feita por John Mearsheimer, no artigo “Pull those boots of the ground“. No inglês ele chama de “offshore balancing”, explicando que posicionar o exército americano estrategicamente entre pontos de tensão, e não no centro deles, pode ser mais barato e mais eficaz do que o que está sendo feito hoje. O “offshore” seria o posicionamento externo, o “balancing” seria contar com poderes regionais dos pontos de tensão (no caso Irã, Iraque e Arábia Saudita) para se auto regularem. Os EUA continuariam engajados no apoio econômico e diplomático a esses países, posicionados para intervir militarmente em tempo hábil no caso de crises. Mas o fato de não estarem tão intensamente dentro dos problemas seria mais barato e diminuiria o ressentimento da população do local, reduzindo a quantidade de jovens disponíveis para os grupos rebeldes locais.

 

Eu ia lendo esses artigos e pensando “Engraçado, eles estão falando dos países muçulmanos, mas me parece que tudo poderia ser aplicado também nas nossas favelas.”, por isso resolvi escrever esse post.

 No final das contas acho que o mais importante é entender que a miséria de alguns, além de cruel, traz prejuízos para todos. Não adianta Israel ser forte economicamente, ser uma referência tecnológica para o mundo, se ali ao lado tem tanta gente junta levando uma vida de frustrações como acontece em Gaza. Os ataques palestinos só diminuirão quando os jovens de Gaza não se sentirem mais humilhados, e acho que o mesmo acontece em outros focos de pobreza no planeta.

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Só uma obs: ainda estou por fora das novas regras ortográficas. Me desculpem :)