
Os espectadores de uma crise inevitavelmente se dividem em dois grupos: os pessimistas, que ficam alarmando o apocalipse aos quatro ventos, e os otimistas, com o papo de que “toda crise é uma oportunidade”. Quem me conhece sabe que sou do segundo grupo, otimista de carteirinha, mas reconheço que para evoluir precisamos das duas visões. Não dá nem para ficar muito animado só esperando que as coisas se resolvam, e nem muito desesperado achando que nada que pode ser feito. Então, diante da crise atual, pensei em falar um pouco dessas duas visões nesse post.
A VISÃO DOS OTIMISTAS:
Primeiro focarei nos otimistas, listando algumas oportunidades que juntei dos artigos e notícias que tenho lido sobre a crise. Quais limonadas poderão ser feitas dos limões que estão sendo espalhados pelo mundo.
Brasil
Começando pela nossa área, estamos no momento de lembrar que é na chuva que consertamos as goteiras. Pode ser que a crise finalmente traga a pressão necessária para que o governo feche logo a tão esperada reforma tributária, e de quebra acelere também outras pendências que estão atravancando a nossa competitividade. Vejam um trecho da entrevista de Roubini para a Folha, em 7/09/2008:
FOLHA – Apesar dos recentes avanços, o Brasil não consegue crescer o tanto que quer e precisa. Por quê?
ROUBINI – Há sérios impedimentos estruturais ao crescimento que persistem, como a falta de infra-estrutura, falta de uma boa educação para a força de trabalho, há tributação excessiva e gastos do governo elevados demais. Em resumo, foram feitas reformas macro e financeiras, agora o país precisa de reformas micro. Não acho que o atual presidente progredirá nessas reformas, vamos ver o próximo.”
Também acho que é coisa demais para os dois anos finais do mandato do Lula, mas se Brasília conseguir fechar a reforma tributária e gerenciar melhor os gastos do governo acho que já sairemos no lucro. A oportunidade é dupla: a pressão da crise e a alta popularidade do presidente.
Estados Unidos
A comparação com a crise de 29 é a mais óbvia e por isso a mais repetida pelos economistas. A Grande Depressão definitivamente foi um limãozaço para os EUA, mas eles conseguiram fazer uma baita limonada com ela. Foi da crise que surgiram várias medidas que modernizaram a arquitetura financeira do país, que também viriam a ser adotadas pelos governos do mundo desenvolvido e, mais recentemente, pelos mercados emergentes. As respostas à euforia dos investidores de Nova York no início do séc XX foram o New Deal e Keynes, que mostraram o quanto a mão-visível do governo também é importante para a regulação do mercado. Esse tino para se transformar que deu aos EUA a estrutura necessária para que o país mantivesse sua liderança mundial ao longo do último século, mesmo passando por duas guerras Mundiais e outros conflitos militares caros, pela Grande Depressão, recessões e pânicos financeiros, choques de petróleo e outros Katrinas mais.
Mais uma vez os EUA terão a oportunidade de mostrar um caminho através da transformação, dessa vez com a combinação de “mão-visível/mão-invisível” adaptada a uma perspectiva global. Eles terão a chance de mostrar se ainda são dignos de sua posição de líderes, agora em um mercado muito maior e mais integrado que no passado.
Europa
Muita gente vê a União Européia como uma redoma experimental do que pode vir a ser o mundo no futuro: uma rede de países soberanos mas com moeda única e livre circulação de bens e trabalhadores. A idéia é ótima, mas será que funciona? Até pouco tempo atrás o euro estava indo muito bem, mas o velho-continente ainda não tinha passado por uma crise suficientemente grave que colocasse sua moeda e seu sistema em prova. Até que alguns acontecimentos recentes começaram a arranhar a idéia do projeto, como o “Não” ao Tratado de Lisboa que o povo irlandês deu no referendo realizado em Junho e a divergência de posições entre os membros do grupo no conflito entre a Rússia e a Geórgia em Agosto.
Pois agora a UE tem oportunidade de mostrar ao mundo – e aos seus próprios membros – que consegue sim se organizar e tomar decisões harmoniosas. Apesar de no início da crise eles terem adotado um discurso do “cada um por si” agora parece que entraram em sintonia maior. Se no processo de reequilíbrio do mercado a zona do euro conseguir manter seus laços e suas decisões estratégicas apontando para a mesma direção, o projeto da comunidade européia com certeza sairá mais forte na nova configuração mundial decorrente da crise.
China
Os sinais da desaceleração estão cada vez mais claros, e já é dado como certo que em 2008 o país terá seu menor crescimento dos últimos 10 anos. A previsão é que a taxa de crescimento do PIB para esse ano fique entre 8% e 9%, o que ainda é excelente, mas menor que a média de 11% da última década. Dois motivos explicam a puxada no freio: a queda da demanda externa por seus manufaturados e um esfriamento no mercado imobiliário interno. Na verdade esses dois fatores têm a mesma origem: a ameaça de recessão global. O mundo já se preparando para apertar os cintos compra menos, as exportações caem, empresas chinesas vendem menos, a população do país vê seu poder aquisitivo reduzido, a confiança cai e o crédito fica mais caro, inclusive para comprar a casa própria. A inflação no preço dos alimentos também tem sua responsabilidade nessa equação.
O governo chinês tem agora a oportunidade de fortalecer seu mercado interno, reduzindo assim sua dependência das exportações. Para isso pode usar parte da sua enorme poupança investindo em infra-estrutura e obras sociais. Se conseguir aquecer o mercado doméstico poderá diminuir a oferta de crédito artificialmente barato para o mundo, deixando o valor do yuan flutuar mais livremente. Muitos analistas estão falando que os EUA se afogaram na oferta de liquidez vinda das economias emergentes, principalmente da China. Americanos se encheram de dívidas enquanto a China alimentava as suas reservas cambiais, que alcançou a cifra astronômica de US$1,8 trilhão em Junho. Agora é a oportunidade para reequilibrar os lados da balança, o que a Economist chamou de “rebalancing act”.
Rússia, Venezuela e Bolívia
Confesso que tenho uma certa implicância com os três. Obviamente não por seus povos ou pelos países em si, mas pela canastrice de seus líderes. Na verdade a maior oportunidade que a crise trará em relação a esses países não será para eles, mas para o resto do mundo. O grupo assumiu nos últimos anos uma influência política em suas regiões que não condizia com sua estrutura econômica interna. Financiados pelos preços altos de petróleo e gás, os três se acharam no direito de fazer coisas que nunca fariam em um momento de vacas magras. Pois o momento de vacas magras chegou, o petróleo já bateu a menos de US$70,00, e os sinais de desaceleração da demanda mundial por combustível – principalmente por parte da China – estão cada vez mais claros. A crise será uma ótima oportunidade para eles verem que têm que baixar um pouco a bola.
E A IMPORTÂNCIA DOS PESSIMISTAS?
Listar tudo que pode ser alcançado é fácil, difícil é colocar em prática. São tantas variáveis, e tantos jogadores em campo, que organizar tudo para que as coisas saiam da melhor maneira possível não é das tarefas mais fáceis. É preciso otimismo, mas também uma certa dose de tensão. Algumas medidas tomadas no mercado financeiro causam efeitos rápidos, como aumento do crédito na praça, mas elas não resolvem as raízes dos problemas e podem criar um clima falso de tranqüilidade. Para soluções reais é preciso medo, pressão, insistência, e não se enganar pelos primeiros resultados positivos que talvez apareçam. É importante que figuras como Gordon Brown fiquem insistindo em um mega acordo internacional, uma espécie de Bretton Woods II, e que os jornalistas fiquem batendo na mesma tecla, repetindo que mudanças estruturais são urgentes.
E aí que os pessimistas entram. O discurso deles que alimentará as manchetes do que pode sair errado se não fizermos as transformações necessárias. Claro que muito pode entrar pelo cano, mas no geral os pontos são os mesmos: recessão global, desemprego e queda na qualidade de vida da população mundial.
Como disse, otimistas e pessimistas devem continuar cumprido seu papel para que possamos ultrapassar o furacão com o melhor resultado para todos.
TEMOS ALGUM EXEMPLO?
Sim, a própria crise de 29. A crise de confiança foi geral, o caos se espalhou pelo mundo, mas os governos se organizaram e, mesmo que tarde, as medidas necessárias foram tomadadas. E prova que elas deram frutos são os gráficos que coloco a seguir. O primeiro mostra a evolução do PIB mundial per capita nos últimos 2000 anos e a evolução do tamanho da população mundial. A altura no gráfico representa a população, o tamanho da bolinha o valor do PIB per capita. Prestem atenção no salto entre 1900 e 2000.
O próximo gráfico mostra a divisão percentual do PIB mundial entre os continentes do ano 500 para cá. Reparem como a concentração diminuiu, principalmente de 1900 para cá.
Os dois gráficos foram tirados do excelente site Visualizing Economics. Só espero que os pessimistas não virem otimistas ao verem essas imagens ;)













