"Todo aquele que se lança ao design está transformando situações existentes em situações preferidas." Herbert Simon
Categorias: Economia

Os espectadores de uma crise inevitavelmente se dividem em dois grupos: os pessimistas, que ficam alarmando o apocalipse aos quatro ventos, e os otimistas, com o papo de que “toda crise é uma oportunidade”. Quem me conhece sabe que sou do segundo grupo, otimista de carteirinha, mas reconheço que para evoluir precisamos das duas visões. Não dá nem para ficar muito animado só esperando que as coisas se resolvam, e nem muito desesperado achando que nada que pode ser feito. Então, diante da crise atual, pensei em falar um pouco dessas duas visões nesse post.
 

A VISÃO DOS OTIMISTAS:

Primeiro focarei nos otimistas, listando algumas oportunidades que juntei dos artigos e notícias que tenho lido sobre a crise. Quais limonadas poderão ser feitas dos limões que estão sendo espalhados pelo mundo.

Brasil
Começando pela nossa área, estamos no momento de lembrar que é na chuva que consertamos as goteiras. Pode ser que a crise finalmente traga a pressão necessária para que o governo feche logo a tão esperada reforma tributária, e de quebra acelere também outras pendências que estão atravancando a nossa competitividade. Vejam um trecho da entrevista de Roubini para a Folha, em 7/09/2008:

FOLHA – Apesar dos recentes avanços, o Brasil não consegue crescer o tanto que quer e precisa. Por quê?

ROUBINI – Há sérios impedimentos estruturais ao crescimento que persistem, como a falta de infra-estrutura, falta de uma boa educação para a força de trabalho, há tributação excessiva e gastos do governo elevados demais. Em resumo, foram feitas reformas macro e financeiras, agora o país precisa de reformas micro. Não acho que o atual presidente progredirá nessas reformas, vamos ver o próximo.”

Também acho que é coisa demais para os dois anos finais do mandato do Lula, mas se Brasília conseguir fechar a reforma tributária e gerenciar melhor os gastos do governo acho que já sairemos no lucro. A oportunidade é dupla: a pressão da crise e a alta popularidade do presidente.

Estados Unidos
A comparação com a crise de 29 é a mais óbvia e por isso a mais repetida pelos economistas. A Grande Depressão definitivamente foi um limãozaço para os EUA, mas eles conseguiram fazer uma baita limonada com ela. Foi da crise que surgiram várias medidas que modernizaram a arquitetura financeira do país, que também viriam a ser adotadas pelos governos do mundo desenvolvido e, mais recentemente, pelos mercados emergentes. As respostas à euforia dos investidores de Nova York no início do séc XX foram o New Deal e Keynes, que mostraram o quanto a mão-visível do governo também é importante para a regulação do mercado. Esse tino para se transformar que deu aos EUA a estrutura necessária para que o país mantivesse sua liderança mundial ao longo do último século, mesmo passando por duas guerras Mundiais e outros conflitos militares caros, pela Grande Depressão, recessões e pânicos financeiros, choques de petróleo e outros Katrinas mais.

Mais uma vez os EUA terão a oportunidade de mostrar um caminho através da transformação, dessa vez com a combinação de “mão-visível/mão-invisível” adaptada a uma perspectiva global. Eles terão a chance de mostrar se ainda são dignos de sua posição de líderes, agora em um mercado muito maior e mais integrado que no passado. 

Europa
Muita gente vê a União Européia como uma redoma experimental do que pode vir a ser o mundo no futuro: uma rede de países soberanos mas com moeda única e livre circulação de bens e trabalhadores. A idéia é ótima, mas será que funciona? Até pouco tempo atrás o euro estava indo muito bem, mas o velho-continente ainda não tinha passado por uma crise suficientemente grave que colocasse sua moeda e seu sistema em prova. Até que alguns acontecimentos recentes começaram a arranhar a idéia do projeto, como o “Não” ao Tratado de Lisboa que o povo irlandês deu no referendo realizado em Junho e a divergência de posições entre os membros do grupo no conflito entre a Rússia e a Geórgia em Agosto.

Pois agora a UE tem oportunidade de mostrar ao mundo – e aos seus próprios membros – que consegue sim se organizar e tomar decisões harmoniosas. Apesar de no início da crise eles terem adotado um discurso do “cada um por si” agora parece que entraram em sintonia maior. Se no processo de reequilíbrio do mercado a zona do euro conseguir manter seus laços e suas decisões estratégicas apontando para a mesma direção, o projeto da comunidade européia com certeza sairá mais forte na nova configuração mundial decorrente da crise.

China
Os sinais da desaceleração estão cada vez mais claros, e já é dado como certo que em 2008 o país terá seu menor crescimento dos últimos 10 anos. A previsão é que a taxa de crescimento do PIB para esse ano fique entre 8% e 9%, o que ainda é excelente, mas menor que a média de 11% da última década. Dois motivos explicam a puxada no freio: a queda da demanda externa por seus manufaturados e um esfriamento no mercado imobiliário interno. Na verdade esses dois fatores têm a mesma origem: a ameaça de recessão global. O mundo já se preparando para apertar os cintos compra menos, as exportações caem, empresas chinesas vendem menos, a população do país vê seu poder aquisitivo reduzido, a confiança cai e o crédito fica mais caro, inclusive para comprar a casa própria. A inflação no preço dos alimentos também tem sua responsabilidade nessa equação.

O governo chinês tem agora a oportunidade de fortalecer seu mercado interno, reduzindo assim sua dependência das exportações. Para isso pode usar parte da sua enorme poupança investindo em infra-estrutura e obras sociais. Se conseguir aquecer o mercado doméstico poderá diminuir a oferta de crédito artificialmente barato para o mundo, deixando o valor do yuan flutuar mais livremente. Muitos analistas estão falando que os EUA se afogaram na oferta de liquidez vinda das economias emergentes, principalmente da China. Americanos se encheram de dívidas enquanto a China alimentava as suas reservas cambiais, que alcançou a cifra astronômica de US$1,8 trilhão em Junho. Agora é a oportunidade para reequilibrar os lados da balança, o que a Economist chamou de “rebalancing act”.

Rússia, Venezuela e Bolívia
Confesso que tenho uma certa implicância com os três. Obviamente não por seus povos ou pelos países em si, mas pela canastrice de seus líderes. Na verdade a maior oportunidade que a crise trará em relação a esses países não será para eles, mas para o resto do mundo. O grupo assumiu nos últimos anos uma influência política em suas regiões que não condizia com sua estrutura econômica interna. Financiados pelos preços altos de petróleo e gás, os três se acharam no direito de fazer coisas que nunca fariam em um momento de vacas magras. Pois o momento de vacas magras chegou, o petróleo já bateu a menos de US$70,00, e os sinais de desaceleração da demanda mundial por combustível – principalmente por parte da China – estão cada vez mais claros. A crise será uma ótima oportunidade para eles verem que têm que baixar um pouco a bola.

E A IMPORTÂNCIA DOS PESSIMISTAS?

Listar tudo que pode ser alcançado é fácil, difícil é colocar em prática. São tantas variáveis, e tantos jogadores em campo, que organizar tudo para que as coisas saiam da melhor maneira possível não é das tarefas mais fáceis. É preciso otimismo, mas também uma certa dose de tensão. Algumas medidas tomadas no mercado financeiro causam efeitos rápidos, como aumento do crédito na praça, mas elas não resolvem as raízes dos problemas e podem criar um clima falso de tranqüilidade. Para soluções reais é preciso medo, pressão, insistência, e não se enganar pelos primeiros resultados positivos que talvez apareçam. É importante que figuras como Gordon Brown fiquem insistindo em um mega acordo internacional, uma espécie de Bretton Woods II, e que os jornalistas fiquem batendo na mesma tecla, repetindo que mudanças  estruturais são urgentes.

E aí que os pessimistas entram. O discurso deles que alimentará as manchetes do que pode sair errado se não fizermos as transformações necessárias. Claro que muito pode entrar pelo cano, mas no geral os pontos são os mesmos: recessão global, desemprego e queda na qualidade de vida da população mundial.

Como disse, otimistas e pessimistas devem continuar cumprido seu papel para que possamos ultrapassar o furacão com o melhor resultado para todos.

TEMOS ALGUM EXEMPLO?

Sim, a própria crise de 29. A crise de confiança foi geral, o caos se espalhou pelo mundo, mas os governos se organizaram e, mesmo que tarde, as medidas necessárias foram tomadadas. E prova que elas deram frutos são os gráficos que coloco a seguir. O primeiro mostra a evolução do PIB mundial per capita nos últimos 2000 anos e a evolução do tamanho da população mundial. A altura no gráfico representa a população, o tamanho da bolinha o valor do PIB per capita. Prestem atenção no salto entre 1900 e 2000.

Fonte: Angus Maddison, University of Groningen

 

O próximo gráfico mostra a divisão percentual do PIB mundial entre os continentes do ano 500 para cá. Reparem como a concentração diminuiu, principalmente de 1900 para cá.

Fonte: Angus Maddison, University of Groningen

 

Os dois gráficos foram tirados do excelente site Visualizing Economics. Só espero que os pessimistas não virem otimistas ao verem essas imagens ;)

Categorias: Web

O TSE nessas eleiçoes proibiu que os candidatos fizessem qualquer tipo de propaganda política em sites que não os seus próprios. No início pensei “Pôxa, não vamos ter videozinhos de youtube a la Obama x McCain…”. Mas acho que, de um outro jeito, a web está sendo usada sim para influenciar a disputa por aqui.  Ainda bem.

Duas coisas na web que me chamaram atenção nesses últimos dias:

1) O blog do Caetano Veloso. Quantas vezes ele consegue falar a palavra “Gabeira” por frase? Trecho de parágrafo tirado do último post do site:

GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA. Vamos redobrar o entusiasmo e deixar a onda crescer. Gabeira é uma onda boa. O Rio está tendo coragem de olhar para si mesmo. Acho que estamos bem com Paes e Gabeira para escolher. Não tenho nada contra Paes. Mas Gabeira é muito mais coerente. Desprezemos a mão pesada da grande imprensa em sua tentativa de sufocar a força espontânea que a candidatura de Gabeira desencadeou. Tudo o que ele fez de admirável – respeito aos concorrentes, limpeza na campanha de rua, desprezo pelos “santinhos” – vai ganhar cada vez mais significado. Gabeira se eleger prefeito do Rio é algo bom em si mesmo.

2) O post do Noblat sobre a propaganda preconceituosa da Marta Suplicy atacando o Kassab. Na verdade o texto do Noblat foi uma reunião de vários outros blogs, muito bom. O parágrafo que abre o post:

Nunca antes na história deste país os mais destacados blogueiros haviam falado a mesma língua, defendido o mesmo ponto de vista e investido na mesma direção. Pois isso ocorreu ontem – e talvez jamais se repita. Credite-se a proeza a Marta Suplicy, candidata do PT à prefeita de São Paulo, e ao comercial de sua campanha que perguntou sobre a condição civil de Gilberto Kassab (DEM). 

Pelo número de comentários nos dois blogs dá para ter uma idéia do impacto que a mídia internética tem na cabeça das pessoas. Mais uma vez: ainda bem. :)

Categorias: Economia

Assistindo ao Globo News ontem escutei um economista falando que o Brasil está passando por uma crise de “palpite”. Que muita gente que não sabe de nada fica dando sua opinião sobre os últimos acontecimentos do mercado e isso estava atrapalhando a resolução do problema.

Achei engraçado. Fiquei imaginando o que ele iria pensar de um moleque de 25 anos, que fica escrevendo em seu blog sobre a crise, e que nem estudante de economia é. E além de mim tem mais a torcida do Flamengo inteira. Imagina a quantidade de jornais, blogs, rádios, relatórios, podcasts, videocasts e sei lá mais o quê dando seu pitaco no mercado financeiro hoje? Semana passada eu estava pensando sobre isso, se por acaso seria saudável essa abundância de informação. Seguindo meus posts anteriores (Paradoxo da Escolha e Simplicidade) eu diria que não, e que talvez a gente estivesse pecando pelo excesso.

Mas nesse caso terei que discordar do que eu mesmo disse. Toda regra tem sua exceção. :)

Quem acompanha o desenrolar da crise está vendo que todos os passos tomados pelos governos nas ultimas semanas foram meio corridos, afobados. Em menos de duas semanas Bush fez dois pronunciamentos ao vivo na televisão, pacotes foram rejeitados e depois aceitos, trilhões de dólares foram liberados pelos bancos centrais, o G20 se encontrou nos EUA, os líderes europeus se encontraram duas vezes em Paris. Com certeza foram dias agitados.

Mas essa correria tem motivo. Todos estavam com medo de demorar muito para tomar uma atitude e repetir os erros dos EUA na crise de 29 e do Japão na crise de 90. No caso americano a bolsa quebrou em 1929, mas o fato do governo só tomar atitudes sérias quatro anos depois – através do New Deal – trouxe conseqüências negativas para o planeta inteiro por toda primeira metade do séc XX. Nos anos 90 foi a vez do Japão, que por lentidão ao enfrentar uma crise financeira precisou amargar uma década de estagnação e prejuízos equivalentes a 24% do PIB do país para seus contribuintes. Considerando a proporção e a abrangência da crise atual, o mercado estava correto em ficar impaciente e pressionar os governos por agilidade. As conseqüências da omissão poderiam ser ainda mais graves do que as vistas nessas duas ocasiões do passado.

Apesar de ainda estarmos no meio da crise, estou falando tudo no pretérito porque bem ou mal todos os governos já tomaram um monte de medidas. Sei que o mercado fechou com grandes altas ontem e parece estar indo bem hoje (são 7 da manhã de terça-feira enquanto escrevo, a bolsa de Toquio fechou com alta recorde de 14,15%), no entanto afirmar que o pior já passou com certeza seria precipitado. Mas uma coisa é certa: ninguém pode falar que os governos estão sendo lentos. E eu diria que o maior motivo para essa agilidade é justamente a quantidade de informação que temos hoje disponível para todos, nos mesmos jornais, blogs, rádios, relatórios, podcasts, videocasts e sei lá mais o quê que cito anteriormente.

Até hoje economistas discutem as reais causas da crise de 1929, enquanto a crise atual é examinada por todos os nossos meios de comunicação em tempo real. Ontem, 8:30h da manhã, uma menina na faculdade me disse “É, já acompanhei o fechamento das bolsas asiáticas hoje e as altas foram muito boas.”. Como assim “já acompanhei o fechamento das bolsas asiáticas”??? Ela tinha assistido ao Bom Dia Brasil.

Por isso eu discordo desse economista que estava falando no Globo News. Não tem essa de “Muita gente está falando besteira.”. Está sim, mas não dá para restringir. Justamente porque tanta gente está tendo espaço para expor sua idéias está sendo possível dissecar a crise tão a fundo. Pensando na “Lei de Sturgeon”, que diz que 90% de tudo não presta (me amarro nessa lei), calculo que os 10% de informações que prestam hoje definitivamente superam muito os 10% das outras épocas, e isso só pode ser positivo.

Os governos foram rápidos? Sim. Aumentaram a liquidez do mercado em um momento importante? Sem dúvidas. As reservas dos países emergentes vão aliviar a desaceleração dos países ricos? Provavelmente. Mas acho que quando olharmos para trás veremos que o grande diferencial dessa crise para as anteriores é o acesso a informação que todos temos hoje. Isso que está ajudando a construir o diagnóstico da crise, a formar idéias de como resolvê-la e está mostrando a velocidade com que as medidas devem ser tomadas.

Por isso, quer saber? Não me sinto nem um pouco culpado por estar falando sobre a crise nesse humilde blog. Mesmo sabendo que muito provavelmente estou nos 90% que só falam besteira. :)

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Só para fechar, quem tiver tempo leia essa matéria da Folha de ontem que fala do catador de latas que acompanha a cotação do dólar pelo celular para negociar o preço do quilo da latinha que vende. Sensacional.