"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho

Não tenho escrito muito no blog (acho que o último post foi em março…) mas queria falar um pouco do Twitter. Estou impressionado com o negócio. Sério mesmo. Antes estava achando que era mais uma ondinha, mas agora que estou usando de forma útil comecei a valorizar a ferramenta.

Algumas das coisas que aconteceram desde que comecei a usar o Twitter:

1) Praticamente não leio mais feed de rss. Antes de começar a trabalhar dou uma olhada nos tweets que chegaram, vejo os sites e artigos interessantes enviados por quem eu sigo e dou uma navegada rápida pelas indicações. Tenho gostado mais do resultado final do que quando eu seguia feeds;

2) Participei de um congresso no início de outubro em São Paulo, apresentando um sistema que desenvolvemos no meu trabalho no ano passado. O pessoal do congresso estava twittando todas as palestras em tempo real. Na semana seguinte uma empresa ligou para o meu trabalho interessada em comprar o sistema, depois ter lido no Twitter os comentários sobre a apresentação.

Fala sério…

E o potencial desse acompanhamento real é um absurdo, a ser escrito por muitos e muitos outros posts. Não sei se será necessariamente pelo Twitter, mas definitivamente isso é uma tendência. Eu próprio já me vi acompanhando um congresso pela ferramenta, imagina quando estivermos transmitindo em tempo real na internet os vídeos que capturamos com nossos celulares? E quando um site conseguir integrar esses posts de texto, som e vídeo ao vivo para um determinado evento? O mundo acompanhado em tempo real pelos olhos da inteligência coletiva.

Meio assustador, mas acho maneiro :)

Para quem ainda está perdido segue link explicando o que são os tweets e o outro para baixar um programinha bom para usar a ferramenta (o Twirl).

Categorias: Economia

putin

Em um artigo da Economist da semana passada vi pela primeira vez uma sigla que achei muito interessante: BIC.

O que seria o BIC? Nada mais que o BRIC sem o R. Ou seja: o conjunto de “países-emergentes-para-acompanhar-de-perto” – Brasil, Rússia, Índia e China – só que sem a Rússia! Achei muito bom.

Por que?

Quem me conhece sabe que tenho uma certa implicância com a Rússia. Não contra o povo em si, mas contra seu governo. Acho um bando de paspalhões que se sustenta apenas devido ao petróleo. Quer dizer, sustentava, mas vou falar disso mais na frente.

Quando olhamos de perto vemos que todos os países do BRIC são bem diferentes entre si. Mas digamos que a Rússia seja mais diferente que os outros. Apesar das peculiaridades, China, Índia e Brasil possuem uma característica comum que será fundamental na configuração da economia mundial após a crise: um mercado interno enorme e ativo, com classe média cada vez maior. Nenhum dos três países construiu suas economias sobre a exportação de apenas uma matéria-prima ou combustível, pelo contrário, precisaram desenvolver suas tecnologias de extração, agricultura, produção industrial e serviços. Esse esforço, mais intenso nas últimas décadas, demandou o surgimento de uma classe de profissionais interna, o que movimentou a economia e tem auxiliado no processo de desconcentração da renda.

Já a Rússia… Bem, a Rússia é o contrário disso tudo. Eles construíram sua economia basicamente em cima da exportação de petróleo, e nem para esse mercado se esforçaram para avançar na tecnologia de produção. Com um cenário parecido à de outros PetroEstados, em que os altos preços dos combustíveis bastaram para manter a economia forte, a riqueza ficou cada vez mais concentrada e a classe média cada vez menos qualificada. Isso porque simplesmente o dinheiro estava brotando do chão, não foi necessário muito esforço para conquistá-lo.

Sabe quem isso me lembra? A Venezuela de Chávez e o Irã de Ahmadinejad. Durante a alta do petróleo os dois, juntos com Putin em Moscou, estavam todo animadinhos. Rússia criando conflitos na Europa e bloqueando transporte de gás, Chávez se achando o próprio Símon Bolívar e querendo estender seu governo indefinidamente, e Irã querendo avançar seu poderio no Oriente Médio na base de posse de armamento nuclear. E todo o resto do mundo meio que quieto, pois dependia do combustível deles.

Só que com a crise o vento mudou, a demanda por combustível caiu e, com ela, o preço do petróleo. Agora os três ficaram, digamos, mais tímidos.

Diante disso, sinceramente, com quem vocês acham que a Rússia parece mais? Com o “nosso” grupo – Brasil, Índia e China – ou com o grupo “deles – Irã e Venezuela? Eu não tenho dúvidas, por isso gostei muito do BIC. Aliás, ainda proponho uma nova sigla: RIV, o grupo dos caras maus :)

Mas tem um perigo nessa história toda… Por hora podemos ficar esperançosos com o enfraquecimento dos três patetas, mas isso pode mudar assim que a crise acabar, chutemos que lá para o fim de 2010. Isso porque é muito provável que a demanda energética volte alta como nunca, considerando que a classe média mundial continuará crescendo até lá, mesmo com a crise. Infelizmente o mesmo não pode ser dito da capacidade de produção, porque não esperem que Rússia, Venezuela ou Irã estejam preocupados com isso. Digamos que planejamento de longo prazo não é o forte deles. Com a demanda por combustível mais alta mas a produção sem crescimento, inevitavelmente os preços subirão. Então é grande a probabilidade do poder dos petro-czares voltar com força total e eles ficarem ainda mais malucos. Ou seja: se não fizermos nada agora a irresponsabilidade e arrogância deles os deixarão ainda mais fortes depois da crise.

Por isso torçam para que o plano do Obama de investir em combustível renovável como saída para fortalecer a economia americana funcione. Não é demagogia ou uma nova bolha que está se criando, é a preparação mundial para se livrar desses malucos dos PetroEstados de uma vez por todas. Aí Venezuela, Rússia e Irã deverão desenvolver suas economias como todos nós temos feito: trabalhando. Quando isso acontecer, talvez, vá fazer sentido pensar em BRIC de novo, com todas as letras. Por enquanto eu prefiro ficar com BIC :)

***

Artigo bom na Newsweek sobre os PetroEstados 

slumdog

Fiquei com a vontade bastante original de falar sobre o filme “Quem Quer Ser um Milionário?” (Slumdog Millionaire). Sarcasmo no “original” porque, depois da lavada de 8 Oscars desse ano, acho que ainda vão falar muito nesse filme por aqui. Mesmo assim queria falar sobre uma coisa que está me deixando encucado.

Tem uma sequência de idéias que está abrindo praticamente todos as matérias sobre o filme: “Filmado em uma favela de Mumbai + atores locais + canções indianas + diretor inglês + verba restrita”. A imprensa está dizendo que essa combinação parece definir as “novas” diretrizes para o cinema mundial: melhor utilização de recursos e produção globalizada.

Tudo muito bonito, mas confesso que depois de ver o filme fiquei com algumas dúvidas.

Dúvida 1) O cinema mundial está realmente ficando mais “global” ou simplesmente mais “americano”?

Tenho pensado nessa questão. Inicialmente parece que seria mais provável a primeira opção, com o cinema ficando mais global. Cada vez mais blockbusters americanos têm cara de cinema independente ou europeu (Brilho Eterno…, Onde os Fracos Não Têm Vez, Casamento de Rachel…) e mais filmes “alternativos” caem no gosto do povão (Quem Quer Ser um Milionário, Cidade de Deus, E Sua Mãe Também…). Nesse caso seria todo mundo confluindo para um ponto.
opcao1

Mas saí do “Quem Quer Ser Um Milionário” com essa dúvida. Me desculpe quem discorda, mas o filme não é lá um marco. É divertido, prazeroso, deixa a gente pra cima, mas é só. No geral o filme é bem óbvio, sentimental, não rola em nenhum momento aquilo de você levantar os olhos e pensar “Genial”. Não é genial. É pipoca. Ou “feel-good film”, como o pôster gringo do filme diz. Aquela fórmula boa para deixar a gente entretido durante 1.30h no cinema, com ritmo agradável, visual moderno e trilha sonora empolgante. Resumindo: bem americano. E aí vamos para a segunda opção: talvez o cinema mundial não esteja ficando mais “global”, e sim mais “americano”. Ou pelo menos seria o caminho que “Quem Quer Ser…” está indicando.
opcao2

Dúvida 2) Seria o entretenimento “americano” não apenas americano, mas global?

Isso eu já penso há algum tempo. Os americanos são mestres do pop, do entretenimento, eles sabem como tocar o coletivo. Do produtor da estrela de hip-hop ao escritor do seriado de comédia, eles sabem a fórmula. Não vejo isso como pejorativo, pelo contrário, é uma ciência. Do mesmo jeito que um chef de cozinha se dedica a vida inteira para entender a percepção do paladar, os efeitos da combinação de ingredientes. Os mestres do entretenimento sabem que peças juntar e em que sequência para nos satisfazer.

Mas uma dúvida que tenho é se os americanos descobriram a fórmula que atinge o ser-humano, independente da nacionalidade, ou se nós nos adaptamos ao gosto deles por causa da força econômica do país. 

Os puristas vão me odiar agora, mas acho que a resposta dessa segunda dúvida seria que os americanos entenderam o que satisfaz o ser-humano como um todo, pelo menos no sentido do entretenimento. Não acho que a dominação cultural deles seja apenas devido à dominação econômica, mas à técnica que eles chegaram na construção do pop. Acho que no fundo não somos tão sofisticados assim, e o que é envolvente para um povo tem grande chance de ser para os outros. Claro que essa é apenas minha opinião, posso estar completamente errado.

Mas… digamos que eu esteja certo. Então isso seria a resposta para a primeira questão também. Afinal não existiria a dúvida “americano ou global?”, pois as duas opções significariam a mesma coisa. Quando o cinema do resto do mundo fica mais parecido com o americano na verdade ele está se tornando mais adaptado para o gosto do “ser-humano médio”, independente de sua nacionalidade. Exatamente o caso do “Quem Quer Ser…”.

opcao3

Dúvida 3) Mas essa confluência para um ponto é boa?

Essa é uma discussão filosófica. Seria saudável o cinemão de cada país migrar para um mesmo estilo de produção mundial? A homogeneidade não levaria a uma inevitável mediocrização do cinema?

Intuitivamente a resposta é sim. Mas eu discordo. Esse é um processo natural, à medida que as audiências têm acesso ao mesmo material devido aos avanços dos meios de comunicação. Do mesmo jeito que grande parte de um colégio sabe as músicas da banda dos amigos, que grande parte de uma cidade lota os bares da moda, que grande parte de uma país acompanha a novela do momento. O gosto da “massa” sempre vai existir, em todas esferas da sociedade. E em cada um desses níveis existirão os nichos, basta lembrar dos rebeldes do colégio que odiavam a banda dos amigos. A diferença é que a possibilidade de massa está subindo mais um nível, agora mundial. Mas isso não vai levar à mediocrização, simplesmente porque os nichos continuarão existindo. Na verdade acho que ocorrerá o contrário, visto que os nichos, normalmente isolados uns dos outros, agora terão um público maior e poderão interagir, produzindo mais ainda.

hoje1

cultura_global2

 

Concluindo o blábláblá e para fechar meu ponto segue o trailer do filme, com direito à trilha sonora dos Ting Tings – para quem não conhece uma banda metida à alternativa que está na moda nos EUA hoje. E que, por coincidência, também tinha uma faixa na trilha da novela “A Favorita”. Hum… :)