
Por conta dos ataques israelenses os holofotes da imprensa encontram-se hoje sobre Gaza. Israel organizado, mas desproporcionalmente forte. Palestinos fracos, mas imprevisivelmente violentos. As perguntas inevitáveis sempre vêm à cabeça: “Quem está certo? Quem está errado?”.
DifÃcil responder. Mas quando tiramos o olhar emotivo da situação e observamos como os palestinos vivem nesse pedacinho de terra, percebemos que a situação se repete de forma parecida em vários outros bolsões de pobreza no mundo. Quando olhamos bem a vida dessas pessoas vemos que muito dali está também no Iraque, no Irã, nas favelas brasileiras e nos banlieues parisienses. Traços que, reunidos, formam um prato cheio para formação de grupos rebeldes e atitudes extremadas.
Listando pontos que vemos repetidos nesses lugares:
- Falta se saneamento básico, poucas oportunidades de emprego e educação, escassez de alimentação e remédios, frágil estrutura básica hospitalar, de transportes e de segurança social;
- Idade média da população baixa;
- Sentimento de frustração potencializado pelos avanços dos meios de comunicação (hoje é mais fácil saber o que estamos perdendo, ou deixando de ganhar, quando olhamos pela televisão e pela internet a vida das pessoas em outros paÃses).
Não tem como não criar conflito. E não é nem preciso ter um motivo “nobre” como religião por trás: pessoas frustradas e humilhadas encontrarão diferentes razões para se envolver em atividades violentas, na esperança de conseguir assim o que a realidade não consegue lhes oferecer.
Thomas Friedman fala sobre isso no manjado, mas que eu me amarro :), “O Mundo É Plano”:
Humiliation is the most underestimated force in international relations and in human relations. It’s when people or nations are humiliated that they really lash out and engage in extreme violence…
In the old days, leaders could count on walls and mountains and valleys to obstruct their people’s view and keep them ignorant and passive about where they stood in comparison to others. You could see only to the next village. But as the world gets flatter people can see for miles and miles.”
Como solucionar a questão? Entra ano, sai ano, aparece um monte de gente com várias receitas mágicas. Se fosse fácil já estaria resolvido, né? Mas li algumas coisas legais no final do ano passado, principalmente na edição especial de fim de ano da Newsweek - com o humilde tÃtulo “How to fix the world”.  A revista reuniu pensadores importantes do mundo para discutir as questões fundamentais de 2009, sendo que um dos tópicos principais era o avanço da violência nos paÃses islâmicos. Pensei que algumas das idéias talvez pudessem ser replicadas em outros bolsões de miséria, como nossas favelas por exemplo, então aproveitei para reunir os pontos mais relevantes nesse post:
FORTALECIMENTO DA ECONOMIA E MICROCRÉDITO
Esse ponto foi levantado por Paul Brinkley, no artigo “Want to save Iraq? Invest.“. Ele explica que muitos dos insurgentes que atacam o exército americano por lá não o fazem por ideologia, mas porque estão sendo pagos pelos lÃderes antiamericanos do paÃs. O desemprego no Iraque bateu em 50%, muitos chefes de famÃlia não têm outra oportunidade de receita fora a contravenção. Brinkley argumenta que a melhor saÃda para desmantelar esses exércitos paralelos não é a força bruta, mas sim a criação de empregos através de investimentos diretos na região. Além de tirar soldados do crime, seriam reduzidas as barreiras culturais ainda existentes entre americanos e iraquianos. Através também do microcrédito, que já vem dando certo em tantas outras regiões do mundo, pequenos negócios poderiam proliferar, secando ainda mais a fonte de jovens frustrados para os exércitos dos radicais islâmicos.
FORTALECIMENTO DAS MULHERES
No artigo “To fix Islam, Start from the inside“, escrito por Irshad Manji, é levantado um ponto importante:
Educate a boy and you educate only that boy. But educate a girl and you educate her entire family.”
Claro que as mulheres islâmicas vivem uma situação muito mais delicada que as do mundo ocidental, mas é fato que meninas educadas terão um papel decisivo na formação de crianças e no planejamento familiar. Correntes afirmam que a legalização do aborto tem consequências na redução da violência, mas um direcionamento de projetos sociais voltados para mulheres, mesmo sem a alternativa do aborto, talvez tenha um resultado parecido.
BALANCEAMENTO EXTERNO
Essa foi a sugestão feita por John Mearsheimer, no artigo “Pull those boots of the ground“. No inglês ele chama de “offshore balancing”, explicando que posicionar o exército americano estrategicamente entre pontos de tensão, e não no centro deles, pode ser mais barato e mais eficaz do que o que está sendo feito hoje. O “offshore” seria o posicionamento externo, o “balancing” seria contar com poderes regionais dos pontos de tensão (no caso Irã, Iraque e Arábia Saudita) para se auto regularem. Os EUA continuariam engajados no apoio econômico e diplomático a esses paÃses, posicionados para intervir militarmente em tempo hábil no caso de crises. Mas o fato de não estarem tão intensamente dentro dos problemas seria mais barato e diminuiria o ressentimento da população do local, reduzindo a quantidade de jovens disponÃveis para os grupos rebeldes locais.
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Eu ia lendo esses artigos e pensando “Engraçado, eles estão falando dos paÃses muçulmanos, mas me parece que tudo poderia ser aplicado também nas nossas favelas.”, por isso resolvi escrever esse post.
 No final das contas acho que o mais importante é entender que a miséria de alguns, além de cruel, traz prejuÃzos para todos. Não adianta Israel ser forte economicamente, ser uma referência tecnológica para o mundo, se ali ao lado tem tanta gente junta levando uma vida de frustrações como acontece em Gaza. Os ataques palestinos só diminuirão quando os jovens de Gaza não se sentirem mais humilhados, e acho que o mesmo acontece em outros focos de pobreza no planeta.
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Só uma obs: ainda estou por fora das novas regras ortográficas. Me desculpem :)











Engraçado… Não havia me passado esta possibilidade pela cabeça, mas acabo de constatar uma forte tendência sua para a polÃtica com este post. Já pensou nisso?
Tem um certo chefe meu que diz que não sou muito polÃtico :)