"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
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Na meia-noite do dia 29 de Março o GNT transmitirá o documentário americano I.O.U.S.A., espécie de “Uma Verdade Incoveniente” econômico. O filme mostra as causas e consequências da dívida gigante do governo americano, e foi lançado um pouco antes do caos financeiro começar na segunda metade do ano passado. Com visual moderno e uma lista de entrevistados impressionante (incluindo Warren Buffett e Alan Greenspan), o filme levou para o cinema uma discussão normalmente distante para o grande público. Fez um relativo sucesso lá fora, chegando a concorrer ao prêmio de melhor documentário no Sundance Film Festival, mas aqui está pulando direto para a televisão. Confesso que não entendi o porquê, mas pelo menos poderemos vê-lo em casa.

Independente do teor do documentário, o que acho legal do filme é o fato de ele ser um bom símbolo de como o avanço dos meios de comunicação está ajudando a subir o nível da discussão da sociedade de uma maneira geral. Que o volume de informação disponível está crescendo a cada dia já é meio clichê, mas acho que estamos vendo também um aumento qualitativo do processo. E o mais importante: dos dois lados, tanto de quem oferece a informação quanto de quem consome.  

Ainda escreverei um post sobre o que acho que poderá ser o pulo do gato no nosso processo civilizatório daqui a algumas décadas: a combinação do aumento de força de trabalho educada, filhos de quem está alcançando a classe média hoje, com o arsenal poderoso de tecnologia da informação que está sendo arquitetado, internet rápida e disponível em equipamentos portáteis. Mas por enquanto aproveito para lembrar da transmissão desse documentário para os leitores do blog :)

Quem tiver  curiosidade, veja abaixo um “compacto” de 30mins do filme:

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Há alguns anos atrás, esperando para ser atendido no dentista, li numa dessas revistas típicas de sala de espera uma coisa que ficou na minha cabeça. Desses parágrafos que são melhores que livros inteiros. Achei legal dividir aqui no blog com vocês :)

A tal idéia estava em uma entrevista com John Lasseter, chefão da Pixar. Ele explica que um dos maiores inspiradores do trabalho dele era seu irmão Jim, já morto na época mas que tinha sido um designer brilhante em vida. Uma frase de Jim ajudou a definir os rumos que o trabalho de Lasseter tomou desde o início de sua carreira:

You know, what I think makes sense in fashion design is to take a really wild fabric and then make a classic pattern or piece of clothing with it. Either that, or you take a classic fabric and make a crazy pattern with it.”

O pensamento central é que se você cria dessa forma as pessoas sempre terão alguma coisa que lhes é familiar para se relacionar com sua idéia, mesmo ela sendo nova. Se você fizer uma roupa louca com um tecido louco as pessoas não entenderão. Se você fizer uma roupa normal com um tecido normal as pessoas vão achar chato. Então misture os dois conceitos.

Simples, mas genial.

Como o pensamento influencia trabalho de Lasseter?

Quando começou a trabalhar com computação gráfica ele viu um monte de nerds gerando imagens de esferas e cubos coloridos dançando no espaço a partir de cálculos em seus softwares, acompanhadas de sons engraçados como “beep-beep-bo-beep”. Ele também achou legal, mas lembrou do seu irmão e pensou “A tecnologia é o máximo, mas as pessoas não vão entender.”.

Então em 1986 surge Luxor Jr, a lampadazinha que todo mundo conhece hoje como o símbolo da Pixar. Usando animação computadorizada em um filme com personagens e enredo, Lasseter usou uma tecnologia que as pessoas não conheciam mas em um formato que elas entenderiam. O resultado foi muito bem recebido, e assim a promissora vida da Pixar tem início. Depois vem a história que todo mundo já conhece: uma sequência de sucessos que agrada a todos, dos molequinhos aos marmanjos, passando por filmes como Toy Story, Procurando Nemo e Wall-E (uma obra-prima, na minha humilde opinião).

Mas agora tanto o tecido como a roupa estão ficando “normais”, a audiência está ficando acostumada com computação gráfica. Como manter o frescor? Lasseter, atualmente também diretor criativo da Disney, já anunciou para o final de 2009 o filme “The Princess and the Frog“. A animação é feita à mão (uma técnica já meio louca para as crianças de hoje) e traz pela primeira vez na história da empresa uma protagonista negra. Idéias novas, utilizando formatos familiares.

Aplicando no mundo real

No ano passado trabalhei no desenvolvimento de um sistema que tinha um objetivo um tanto quanto complicado: tornar agradável para os integrantes de uma equipe o ato de registrar tudo que foi feito durante o dia de trabalho. Uma espécie de diário de atividades. As informações providas por esse diário são de grande importância para a alta gerência da empresa, afinal é conhecimento do negócio que está declarado ali. Mas convenhamos: ter que escrever tudo o que você fez durante o dia, todos os dias, pode ser muito chato.

Daí comecei a pensar nos pensamentos de Lasseter. Como fazer as pessoas se identificarem com o produto que estávamos desenvolvendo? O que seria familiar para elas? Quando chegamos a conclusão pensamos que, apesar de louco a princípio, na verdade não poderia ser mais óbvio: Orkut!

Fala sério, todo mundo usa Orkut. Mesmo sem obrigação e não tendo nenhum ganho direto com isso, as pessoas adoram esses sites de redes sociais. E não é só no Brasil, as comunidades online são febre no mundo inteiro. MySpace nos EUA, Facebook na Europa, Orkut na Índia, Laiba na China e por aí vai. Começamos a estudar esses sistemas, pesquisando se havia pontos em comum que poderiam ser utilizados na busca por integração e participação dos nossos usuários.

Nesses estudos vimos que sim, essas redes apresentam diversos pontos em comum na sua forma de utilização. Os mais fortes, que viriam a definir o desenvolvimento do nosso sistema, foram os seguintes:

Acesso personalizado: ao se logar o usuário vê sua tela pessoal, com informações relevantes para si próprio e não uma página genérica igual para todos do sistema.
orkut

Feed/atualizações: todas as redes sociais trazem em suas telas iniciais atualizações que possam ser de interesse para o usuário, como mudanças na páginas de amigos e atividades recentes em suas comunidades. O usuário não precisa ficar navegando de página em página para ver as últimas novidades.
facebook

Facilidade de colaboração: em todos os sistemas é fácil inserir novas informações para a rede social, como scraps, comentários e vídeos.
last

Ego/Vaidade: todos os sistemas jogam com a vaidade do usuário, expondo informações como quantidade de amigos e avaliações pessoais. Todos querem aparecer bem na fita.
orkut2

Tomamos essas características como a lâmpada do filme da Pixar. O produto possui todas as características  importantes para a alta gerência (distante do público) mas com a roupagem de um site de rede social (familiar para os usuários). E assim o sistema foi desenvolvido, com direito até a fotinho de cada integrante da equipe.

Não foi fácil convencer que o Orkut seria um bom modelo a ser seguido para uma ferramenta corporativa. Mas agora o sistema já está funcionando na empresa há alguns meses e, modéstia a parte :) , acho que está sendo muito bem sucedido. As pessoas estão se identificando com ele, colocando suas fotos, ninguém quer parecer atrasado em seus registros e a participação está mais fácil. As informações finalmente estão sendo reunidas. Todo mundo sai feliz, equipe e diretoria.

Mas o mais importante desse blá-blá-blá todo é : quer vender uma idéia muito inovadora mas difícil? Coloque-a em uma estrutura familiar para seu público. Se a idéia for realmente boa acho que a chance de dar certo será bem maior.

***

Leia a entrevista de Lasseter na íntegra

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O Google (sempre ele…) lançou um novo projeto semana passada. Agora é possível “navegar” por 14 pinturas do Museu do Prado, através do seu software Google Earth. O grande lance do serviço é que a resolução das imagens é de 14.000 milhões de pixels, equivalente a um nível de detalhe 1.400 vezes maior que o de fotos tirada por uma câmera de 10 megapixels. Isso permite impressionantes zooms em cada tela, uma experiência impossível mesmo quando vamos no museu propriamente dito. Assista abaixo ao making-off (2:55s):

No Financial Times saiu um artigo que achei meio bobo falando sobre isso. O colunista Christopher Caldwell, empolgado com o projeto, tenta explicar porque existem galerias de arte, revendo avanços tecnológicos como esse oferecido pelo Google. Me pareceu que ele não acha tão fundamental assim ver as telas originais.

Everyone involved with the project insists that you still have to go to the Prado if you want to see these paintings properly. “There is no substitute for the direct experience of the work,” says Miguel Zugaza, director of the Prado.

Why not? Similar arguments made about the theatre almost a century ago did not stop the cinema from supplanting it. The physicality of a painting might be missed, but not that much. Paintings are flat.”

No último parágrafo ele diz o seguinte:

Should there be museums? Of course. But if we subject them to the same hard-headed de-mystification to which we subject, say, fox hunting, men’s clubs and smoking, and if we exclude social, traditional, moral and mystical justifications as somehow illegitimate, we will find it hard to make a case for them. Art museums will join the list of institutions – newspapers, for example – that are withering in the hot light of information technology, no matter how indispensable to civilised life they may once have seemed.”

Sinceramente… Comparar galeria de arte com caça esportiva e strip-bars é um pouco absurdo, né? “Mystical justifications”? Talvez eu seja suspeito porque gosto de ir a museus, mas não acho que quem vá à exposições vá substituir esse costume pelo Google. Existem basicamente dois tipos de pessoas que vão à galerias: as que vão por turismo e as que vão por interesse artístico. Não acredito que algum dos dois grupos vá trocar essa experiência por uma tela de computador.

De qualquer forma ficar comparando as duas experiências é uma besteira. Elas não deveriam ser concorrentes, mas sim complementares. Fiz um curso em Londres sobre “Empreendimentos para Indústria Criativa” e tínhamos uma colega russa na turma que era responsável por um projeto muito legal. Ela estava instalando sensores abaixo dos nomes das obras em alguns museus, ativados por bluetooth dos celulares dos visitantes. As pessoas poderiam se cadastrar nos sites dos museus e, ao visitarem alguma exposição nesses espaços, poderiam selecionar as obras de maior interesse através de seus celulares. Na mesma hora informações importantes relacionadas a essas obras apareceriam tanto nas telas de seus aparelhos como em suas caixas de email. Pintores relacionados, contexto histórico, outras exposições do artista na cidade e coisas do gênero. Às vezes não queremos fazer anotações enquanto estamos em um museu, mas também não gostaríamos de perder informações relacionadas às obras. O projeto da menina russa contornaria isso. Eu achei genial.

Imagino que essa seja uma das coisas mais interessantes em relação à tecnologia. Usar como apoio e expansão da experiência das atividades que nos dão prazer, ou pelo menos nos dar mais tempo para curti-las. Uma coisa não anula a outra.

Gostei muito do serviço do Google. Já estou imaginando a utilização dele em mesas com touch-screen no meio da sala. Provavelmente vamos comprar menos catálogos de exposições, mas não tenho dúvida que vamos continuar indo a exposições. Simples assim. :)

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