Trabalhei por um tempo em gravadora e enquanto estava lá aconteceu uma coisa engraçada comigo. Eu ficava tanto tempo rodeado por gente de música, ouvindo música, falando de música, que acabei ficando um pouco chato para música. Cri-cri mesmo. Comecei a torcer o bico para sons que antes eu curtiria na boa. “O arranjo não está muito bom”, ou “a versão do João Gilberto é muito melhor”. Esse tipo de comentário mala.
Quando notei isso comecei a tomar mais cuidado. Às vezes a gente cai tão de cabeça em algum assunto que começa a se privar de curtir um monte de coisa. Por exemplo, eu adoro vinho. Mas não quero aprender sobre vinho, porque acho que se começar a entender muito não vou mais aproveitar as promoções do supermercado com tanto prazer :) Outro exemplo: uma vez eu fui num concerto do Nelson Freire, no Teatro Municipal aqui do Rio, com um amigo que se amarra em música clássica. Eu, leigo que sou, estava achando o máximo, bonito, e ele vira e diz “A mão dele hoje está meio pesada no piano”. Pesada? Como assim? Dei graças a deus por ser ignorante nisso, porque pelo visto eu estava curtindo muito mais do que ele.
Posso estar errado, mas confesso que hoje prezo muito manter um certo nÃvel de ignorância nas coisas. É bom tentar identificar o limite entre “saber a ponto de usar da melhor forma possÃvel” e “saber a ponto de ficar muito chato”. A diferença é tênue, mas acho que existe.
Isso acontece muito no trabalho também. Aliás, talvez principalmente no trabalho. Engenheiros que só conseguem falar com engenheiros, designers que criam pensando no que outros designers vão achar, esse tipo de coisa. Concordo que é interessante ter um certo domÃnio em algum campo, mas ficar só nisso? Acho chato quando ficamos tão especialistas em algo a ponto de nos descolarmos da visão que o resto do mundo tem, que o resto do mundo usa. Acabamos nos distanciando exatamente das pessoas que vão usar o que estamos criando.
Comecei a pensar sobre isso quando estava organizando o meu portfólio aqui para o blog. Quem navegar pelas páginas verá que eu fico transitando entre três assuntos: negócios, desenvolvimento de software e design. Mas no final das contas não procurei me especializar em nenhuma das três áreas, pelo menos por enquanto. Quando converso com meus amigos que trabalham com consultoria de negócios vejo que não sei usar as metodologias mais avançadas de gestão. Quando falo com pessoal de TI eles brincam comigo porque só sei PHP. Quando estou no meio de designers vejo que não sou tão “cool”, não sei tudo de Illustrator, sei lá. Acho que converso bem com os três grupos, mas sei que chega um momento que o papo não fica mais de igual para igual. Tenho a impressão que para os meus amigos certinhos eu sou muito hippie, e para os amigos hippies eu sou muito certinho :).
Mas depois comecei a pensar na questão da gravadora e acho que talvez seja isso mesmo. Eu acho que curto muito as três áreas, mas que prefiro ficar “no meio”. Deliberadamente não ficar especialista demais em uma coisa. Estou feliz assim. Só não sei se essa postura é muito estratégica profissionalmente. Não sei se trabalho é igual a vinho…
Deveria ser. Pelo menos se a gente considerar o que se lê por aÃ, que as empresas estão procurando profissionais “multidisciplinares”. Será mesmo? Tive algumas experiências frustradas com esse negócio de processo seletivo, acho que algumas pessoas não entendem o que tem a ver um engenheiro de produção que desenvolve sistemas, curte design gráfico e já trabalhou numa gravadora. Como isso seria relevante para o negócio deles? “O cara não é muito desfocado?” Imagino as questões que passam pela cabeça desse pessoal de recrutamento que se depara com um currÃculo, digamos, diferente como o meu. Tenho a impressão que os gerentes que falam em revistas que estão buscando “pessoas criativas”, de “cabeça aberta” e  ”multidisciplinares”  não são as mesmas pessoas que estão conduzindo os processos seletivos.
Mas, sei lá, acho que vou continuar arriscando nesse caminho :). Como disse, estou feliz assim. Hoje li um artigo legal que fala como empresários poderiam pensar mais como designers, e o final do texto diz:
Be stupid often, but early. Executives often harbor the unrealistic ambition of being right 100% of the time. A few stupid mistakes can actually make you smarter, in the same way that physical exertion rounds you into shape. For obvious reasons, mistakes are less costly if they’re committed early in the process.”
Eu concordo. Se for para ser bobo, que seja agora né? Com 26 anos ainda dá para quebrar a cara, e se eu vir que a boa é sair do caminho “do meio” e focar em uma coisa e vou para esse lado. Enquanto esse momento não chega vou seguindo nos meus designs, sistemas, negócios, vinhos em promoção… :)