"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho

À primeira vista o programa do Multishow pode parecer, digamos, um tanto quanto frívolo: uma ex-vj da MTV tomando sorvete de casquinha, indo a shows de bandas independentes e visitando lojas de cacarecos em Nova York. Até o jeito como eles próprios se descrevem no site do programa não ajuda muito:

É inusitado?
É divertido?
É em Nova York?
Então é assunto para Didi Wagner!”

Acho que o slogan não faz jus ao programa porque ele é muito mais que isso. Olhe de novo: em um capítulo Didi nos apresenta a uma loja especializada em campanhas políticas, a EXIT9, onde é possível encontrar “papel higiênico e até aromatizante de carro com cara de candidatos”. Em outro conhecemos o “Rooftop Film Festival”, um festival de cinema independente itinerante que acontece em diferentes terraços (!?) da cidade.  Em um terceiro assistimos a diferentes manifestações culturais coletivas, em que grupos de pessoas se reúnem para fazer arte unindo seus diferentes pontos de vista. Tudo isso na Big Apple.

Ainda está achando bobo? Pois eu acho interessantíssimo!

Em todos os programas vejo que a cidade transborda de criatividade, e sinto um pouco o clima que sentia quando eu estava em Londres. Pode ser “divertido” e “inusitado” sim, como o slogan do programa diz, mas acima de tudo é inteligente e até estratégico.

Cada vez lemos mais matérias e artigos falando da crescente importância que as “cidades globais” estão assumindo ao conectar os mercados mundiais. Em janeiro desse ano a Time teve uma capa excelente com título “A Tale Of Three Cities”, focando em Nova York, Londres e Hong Kong – ou Nylonkong, como eles chamaram. Um parágrafo da matéria dá o clima da edição:

Connected by long-haul jets and fiber-optic cable, and spaced neatly around the globe, the three cities have (by accident — nobody planned this) created a financial network that has been able to lubricate the global economy, and, critically, ease the entry into the modern world of China, the giant child of our century. Understand this network of cities — Nylonkong, we call it — and you understand our time.”

E é isso mesmo que acho que temos que fazer: tentar entender essas capitais mundiais. Principalmente nós brasileiros, parte de uma economia jovem, que temos tanto a aplicar em nossos próprios pólos urbanos. Infelizmente a realidade dessas cidades ainda é muito distante para a média dos brasileiros, por isso acho fundamental termos programas como esse do Multishow, que servem como referência e inspiração para adolescentes, universitários e recém ingressos no mercado de trabalho. Essa geração (que aliás me inclui) formará a base da nossa economia nos próximos 20 anos, e qualquer fonte de informação que nos ajude a estar mais conectados com o resto do mundo só pode ser bem vinda.

O programa não fala de super-empresários e banqueiros – o que no momento seria até uma bola fora. Mas temos que parar com essa onda de subestimar a importância das artes e da cultura para o desenvolvimento social e econômico dos lugares. Essa idéia de separar “comida” de “diversão e arte” é antiga e obsoleta. Já está na hora de entendermos que mais “diversão e arte” atrai mais “comida”, mais negócios, mais grana. É um ciclo. Como também escrito na matéria da Time:

Great cities, of course, are about more than money and finance. They are messy agglomerations of talent and culture. That is how they attract men and women in the financial sector who could choose to live anywhere.”

Não é a toa que essas três cidades, pólos financeiros, são também onde acontecem as maiores exposições, onde vemos mais artistas independentes e mais jovens empreendedores. Exatamente o tipo de pessoa que Didi nos mostra no seu Lugar Incomum.

Então, mais uma vez afirmo: esse programa é tudo, menos uma besteira. E digo mais: o Multishow deveria investir em outros Lugares Incomuns também, como Londres, Tóquio, São Paulo… Já pensou? Eu com certeza os assistiria.

Lugar Incomum
No Multishow, toda quarta-feira às 21.15h, reprise nos sábados às 16.30h
Apresentado por Didi Wagner

Categorias: Economia, Web

Entendo que as eleições dos EUA afetam o mundo inteiro, afinal queiram ou não eles ainda são a maior economia do planeta. Sem dúvida o presidente americano é um dos líderes mundiais que mais têm impacto em nossas vidas. Mas… bom, é UM dos. Não é O líder. Ou é? Prefiro acreditar que não.

Aí vem a Economist e monta uma “eleição mundial” para próximo presidente dos EUA. Sei que é um exercício de imaginação e tal, mas essa de “what if the whole world could vote” e “global electoral college”, hummm, não sei não… Gosto da revista, mas às vezes acho que eles forçam a barra um pouco demais. Tenho a impressão que eles seguem firmemente a idéia de que ‘a melhor forma de prever o futuro é criá-lo’. E o que me deixa mais ressabiado é que fica claro que a revista sabe a influência que têm sobre muita gente no mundo, e fica jogando com isso.

Acho que eu estou meio perseguido. Logo eu que estava tão otimista até o último post… Não, estou brincando, ainda estou otimista. Mas que fico com o pé atrás às vezes com a Economist isso fico…

Peraí. Será que eu estou virando vermelhinho??  :)

(Obs: Só como curiosidade, quando escrevi esse post o Obama estava ganhando com 75% dos votos aqui no Brasil. Aliás, a parte de azul no mapa aí de cima são os lugares onde o Obama é preferido até o momento. Engraçado, né?)

Com todos esses problemas no mercado financeiro já tem um pessoal falando de “crise do modelo capitalista”, e uns vermelhinhos num tom de “não dissemos?”. Na minha humilde opinião esse papo é uma besteira, e eu estou cada vez mais animado, até otimista, com o caminho que as coisas estão tomando.

O mundo hoje é diferente do que tínhamos na década de 80. A população global é estimada em 6,75 bilhões de pessoas, e o Banco Mundial estima que nos últimos 20 anos 1 bilhão de pessoas – a maior parte dos países asiáticos – foram inseridas no mercado de trabalho. É muita gente. O mundo e o consumo cresceram à base de mão-de-obra, matéria-prima e créditos muito baratos. Foi tudo muito rápido, e é lógico que em algum momento precisaríamos dar uma parada para reorganizar as coisas. Agora vêm alguns países querer dar lição de moral nos EUA. A Folha de hoje mostra uma frase de Steinbrueck, ministro das Finanças da Alemanha, dizendo que “o que provocou a crise foi um exagero irresponsável do princípio de um mercado livre e sem controles.” Pode ser. Mas que a Alemanha e todo o mundo se aproveitaram, e muito, do ritmo do consumo americano isso ninguém pode negar. Nas últimas décadas houve uma mudança de patamar no processo civilizatório mundial que, quer queiram quer não, foi sustentando pelo capitalismo. Papos de globalização não seriam tão freqüentes sem a integração proporcionada pelo aumento da comunicação, consumo e de transações comerciais entre os países.

E agora? Agora já estão falando na criação de órgãos reguladores com visão global. E em um contexto saudável, multipolar, em que dificilmente um FMI coordenado apenas por um país seria aprovado. Um Bretton Woods com muito mais gente participando. Jeffrey Garten, no Financial Times, fala de um órgão gerenciado por autoridades dos EUA, União Européia, Japão, China, Arábia Saudita e Brasil. Junto a isso temos mais gente participando do mercado de trabalho e consumo. Mais gente pensando, produzindo e criando. Mais países seguindo políticas macro-econômicas responsáveis. Mais relacionamentos de cooperação bilaterais. E acredito ser um caminho sem volta. Todos que passaram a consumir, seja no Méier aqui no Rio, em uma periferia de Pequim ou em Mumbai, vão querer que seus filhos continuem nesse caminho. Todos já acostumados com seu padrão de vida nos países desenvolvidos não vão querer largar o osso. A realidade é que será muito difícil reeducar toda uma classe média mundial a não viajar, consumir e se comunicar mais como está acontecendo hoje.

Por isso tudo, sinceramente, estou muito animado. Não penso que o modelo capitalista esteja em declínio ou nenhuma coisa do gênero, pelo contrário. Acho que estamos entrando numa fase de arrumação da casa, para que possamos curtir com mais tranqüilidade e estabilidade os benefícios que esse ritmo rápido de crescimento das últimas décadas está trazendo para o mundo. Essa adaptação pode até ser um tanto quanto dolorosa, mas a gente vai sobreviver e não tenho dúvidas que os resultados serão muito positivos.

Ou será que eu estou sendo otimista demais? :)