"Todo aquele que se lança ao design está transformando situações existentes em situações preferidas." Herbert Simon

Com todos esses problemas no mercado financeiro já tem um pessoal falando de “crise do modelo capitalista”, e uns vermelhinhos num tom de “não dissemos?”. Na minha humilde opinião esse papo é uma besteira, e eu estou cada vez mais animado, até otimista, com o caminho que as coisas estão tomando.

O mundo hoje é diferente do que tínhamos na década de 80. A população global é estimada em 6,75 bilhões de pessoas, e o Banco Mundial estima que nos últimos 20 anos 1 bilhão de pessoas – a maior parte dos países asiáticos – foram inseridas no mercado de trabalho. É muita gente. O mundo e o consumo cresceram à base de mão-de-obra, matéria-prima e créditos muito baratos. Foi tudo muito rápido, e é lógico que em algum momento precisaríamos dar uma parada para reorganizar as coisas. Agora vêm alguns países querer dar lição de moral nos EUA. A Folha de hoje mostra uma frase de Steinbrueck, ministro das Finanças da Alemanha, dizendo que “o que provocou a crise foi um exagero irresponsável do princípio de um mercado livre e sem controles.” Pode ser. Mas que a Alemanha e todo o mundo se aproveitaram, e muito, do ritmo do consumo americano isso ninguém pode negar. Nas últimas décadas houve uma mudança de patamar no processo civilizatório mundial que, quer queiram quer não, foi sustentando pelo capitalismo. Papos de globalização não seriam tão freqüentes sem a integração proporcionada pelo aumento da comunicação, consumo e de transações comerciais entre os países.

E agora? Agora já estão falando na criação de órgãos reguladores com visão global. E em um contexto saudável, multipolar, em que dificilmente um FMI coordenado apenas por um país seria aprovado. Um Bretton Woods com muito mais gente participando. Jeffrey Garten, no Financial Times, fala de um órgão gerenciado por autoridades dos EUA, União Européia, Japão, China, Arábia Saudita e Brasil. Junto a isso temos mais gente participando do mercado de trabalho e consumo. Mais gente pensando, produzindo e criando. Mais países seguindo políticas macro-econômicas responsáveis. Mais relacionamentos de cooperação bilaterais. E acredito ser um caminho sem volta. Todos que passaram a consumir, seja no Méier aqui no Rio, em uma periferia de Pequim ou em Mumbai, vão querer que seus filhos continuem nesse caminho. Todos já acostumados com seu padrão de vida nos países desenvolvidos não vão querer largar o osso. A realidade é que será muito difícil reeducar toda uma classe média mundial a não viajar, consumir e se comunicar mais como está acontecendo hoje.

Por isso tudo, sinceramente, estou muito animado. Não penso que o modelo capitalista esteja em declínio ou nenhuma coisa do gênero, pelo contrário. Acho que estamos entrando numa fase de arrumação da casa, para que possamos curtir com mais tranqüilidade e estabilidade os benefícios que esse ritmo rápido de crescimento das últimas décadas está trazendo para o mundo. Essa adaptação pode até ser um tanto quanto dolorosa, mas a gente vai sobreviver e não tenho dúvidas que os resultados serão muito positivos.

Ou será que eu estou sendo otimista demais? :)