"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Economia

Assistindo ao Globo News ontem escutei um economista falando que o Brasil está passando por uma crise de “palpite”. Que muita gente que não sabe de nada fica dando sua opinião sobre os últimos acontecimentos do mercado e isso estava atrapalhando a resolução do problema.

Achei engraçado. Fiquei imaginando o que ele iria pensar de um moleque de 25 anos, que fica escrevendo em seu blog sobre a crise, e que nem estudante de economia é. E além de mim tem mais a torcida do Flamengo inteira. Imagina a quantidade de jornais, blogs, rádios, relatórios, podcasts, videocasts e sei lá mais o quê dando seu pitaco no mercado financeiro hoje? Semana passada eu estava pensando sobre isso, se por acaso seria saudável essa abundância de informação. Seguindo meus posts anteriores (Paradoxo da Escolha e Simplicidade) eu diria que não, e que talvez a gente estivesse pecando pelo excesso.

Mas nesse caso terei que discordar do que eu mesmo disse. Toda regra tem sua exceção. :)

Quem acompanha o desenrolar da crise está vendo que todos os passos tomados pelos governos nas ultimas semanas foram meio corridos, afobados. Em menos de duas semanas Bush fez dois pronunciamentos ao vivo na televisão, pacotes foram rejeitados e depois aceitos, trilhões de dólares foram liberados pelos bancos centrais, o G20 se encontrou nos EUA, os líderes europeus se encontraram duas vezes em Paris. Com certeza foram dias agitados.

Mas essa correria tem motivo. Todos estavam com medo de demorar muito para tomar uma atitude e repetir os erros dos EUA na crise de 29 e do Japão na crise de 90. No caso americano a bolsa quebrou em 1929, mas o fato do governo só tomar atitudes sérias quatro anos depois – através do New Deal – trouxe conseqüências negativas para o planeta inteiro por toda primeira metade do séc XX. Nos anos 90 foi a vez do Japão, que por lentidão ao enfrentar uma crise financeira precisou amargar uma década de estagnação e prejuízos equivalentes a 24% do PIB do país para seus contribuintes. Considerando a proporção e a abrangência da crise atual, o mercado estava correto em ficar impaciente e pressionar os governos por agilidade. As conseqüências da omissão poderiam ser ainda mais graves do que as vistas nessas duas ocasiões do passado.

Apesar de ainda estarmos no meio da crise, estou falando tudo no pretérito porque bem ou mal todos os governos já tomaram um monte de medidas. Sei que o mercado fechou com grandes altas ontem e parece estar indo bem hoje (são 7 da manhã de terça-feira enquanto escrevo, a bolsa de Toquio fechou com alta recorde de 14,15%), no entanto afirmar que o pior já passou com certeza seria precipitado. Mas uma coisa é certa: ninguém pode falar que os governos estão sendo lentos. E eu diria que o maior motivo para essa agilidade é justamente a quantidade de informação que temos hoje disponível para todos, nos mesmos jornais, blogs, rádios, relatórios, podcasts, videocasts e sei lá mais o quê que cito anteriormente.

Até hoje economistas discutem as reais causas da crise de 1929, enquanto a crise atual é examinada por todos os nossos meios de comunicação em tempo real. Ontem, 8:30h da manhã, uma menina na faculdade me disse “É, já acompanhei o fechamento das bolsas asiáticas hoje e as altas foram muito boas.”. Como assim “já acompanhei o fechamento das bolsas asiáticas”??? Ela tinha assistido ao Bom Dia Brasil.

Por isso eu discordo desse economista que estava falando no Globo News. Não tem essa de “Muita gente está falando besteira.”. Está sim, mas não dá para restringir. Justamente porque tanta gente está tendo espaço para expor sua idéias está sendo possível dissecar a crise tão a fundo. Pensando na “Lei de Sturgeon”, que diz que 90% de tudo não presta (me amarro nessa lei), calculo que os 10% de informações que prestam hoje definitivamente superam muito os 10% das outras épocas, e isso só pode ser positivo.

Os governos foram rápidos? Sim. Aumentaram a liquidez do mercado em um momento importante? Sem dúvidas. As reservas dos países emergentes vão aliviar a desaceleração dos países ricos? Provavelmente. Mas acho que quando olharmos para trás veremos que o grande diferencial dessa crise para as anteriores é o acesso a informação que todos temos hoje. Isso que está ajudando a construir o diagnóstico da crise, a formar idéias de como resolvê-la e está mostrando a velocidade com que as medidas devem ser tomadas.

Por isso, quer saber? Não me sinto nem um pouco culpado por estar falando sobre a crise nesse humilde blog. Mesmo sabendo que muito provavelmente estou nos 90% que só falam besteira. :)

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Só para fechar, quem tiver tempo leia essa matéria da Folha de ontem que fala do catador de latas que acompanha a cotação do dólar pelo celular para negociar o preço do quilo da latinha que vende. Sensacional.

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É, ontem realmente foi um dia difícil para os otimistas… 

Para você, que como eu, não trabalha em banco e não tem um estagiário para fazer pesquisas e mil análises no Excel, alguns gráficos do comportamento de algumas das principais bolsas do mundos nos últimos 3 anos (fonte:advfn.com).

Começando pelo nosso grupo querido, os agitados BRICs:
 

  • Bovespa / Brasil:

                   

  • RTS Index /Rússia:

                  
  • S&P Cnx Nifty / Índia:
    •                

    • Sse B Share / China:

     

    Agora o resto: (hehe… “resto”…)

    • Dow Jones / EUA:

                    

    • Nasdaq / EUA:

                    

    • FTSE 100: Reino Unido

                    

    • Euronext 100 / Europa:

                    

    • Nikkei 225 / Japão:

     

    E para fechar com chave de outro, a cotação do nosso R$ nos últimos três anos, com direito a bungee jumping no final da curva:

     

    São muitas emoções…

    Categorias: Economia, Livros

    Caraca, estou escrevendo quase todo dia… Também está acontecendo tanta coisa que acho que a nossa cabeça acaba entrando nesse ritmo.

    Bom, anteontem saiu na Folha (quinta-feira 2/10) que o “Lula prioriza manutenção do crescimento”. Parece que o governo deseja manter o crescimento do PIB de pelo menos 4% em 2009 e 2010, mesmo com a crise do mercado financeiro. O artigo deduz que manter o crescimento será importante para que Lula termine o mandato com sua popularidade em alta e aumente as chances de eleição da Dilma.  O nosso Banco Central já está se mexendo, diminuindo os compulsórios – dinheiro que os bancos são obrigados a depositar no BC para cada transação feita por eles. Além disso, está em estudo a possibilidade de leilão de dólares para exportadores, a liberação de R$5bi para agricultura e a capitalização do BNDES para financiamentos destinados a investimentos de longo prazo. Tudo para aumentar a liquidez no mercado, porque é certa (pelo menos no curto prazo) a redução do crédito disponível para empréstimos. Os investidores mundiais vão ter que apertar os cintos por um tempo, e a gente tem que estar preparado para esse possível momento de vacas magras externo. O fato de termos acumulado US$200bi de reserva cambial nos últimos anos vai nos ajudar a atravessar o período.

    Eu tenho cá para mim que essa redução de crédito para o Brasil será temporária. O pacote americano já saiu (foi aprovado ontem), daqui a pouco provavelmente sai um (ou mais de um) europeu, e cedo ou tarde o mercado vai se assentar. Nesse momento, quando tudo estiver um pouco mais calmo, quem tiver conseguido se segurar na boa vai voltar a receber investimentos de novo. Nem todos “emergentes” fizeram o dever de casa de acumular reservas nesses últimos anos como nós fizemos, então quando os investidores voltarem a investir vão dar preferência à economias mais estáveis, sobrando mais para a gente. Pelo menos essa é a previsão de um leigo. :)

    Mas não é disso que eu queria falar nesse post. Na verdade eu quero falar dessa relação de popularidade alta do Lula com crescimento da economia. Se já tem tanta gente melhor agora do que quando o Lula entrou, e não é por causa dessa crise financeira que todo mundo vai sair falindo, por que o presidente continua tão preocupado em manter o crescimento nesses dois próximos anos? Não seria mais prudente lutar pela estabilidade, garantindo que quem ganhou nesses últimos oito anos não saia perdendo? Isso já não seria suficiente para manter a popularidade dele alta até o final do mandato?

    Não necessariamente, pelo menos se seguirmos a teoria econômica. Como somos um dos “países em desenvolvimento” espera-se que um dia sejamos classificados como “país desenvolvido”, mas essa classificação talvez não seja a ideal para explicar a situação de um povo. Pelos economistas, o que aumenta a sensação de satisfação de uma sociedade não é estar bem, mas estar no processo de melhoria, ou estar sempre “em desenvolvimento”. Um trecho famoso do Riqueza das Nações, de Adam Smith, puxou esse pensamento:

    É no estado progressivo da sociedade, quando esta avança para a maior aquisição de riquezas, e não quando alcança a medida completa de riquezas de que é suscetível, que verdadeiramente a condição … do grande conjunto do povo, parece mais feliz e agradável; é árdua no estado estacionário, e miserável no estado de declínio. O estado progressivo é, para todas as diferentes ordens da sociedade, na realidade o mais vigoroso e feliz; o estado estacionário é insípido; e o de declínio, melancólico.”

    O Lula não é bobo. Ele sabe que crescer e estabilizar não é suficiente para continuar com a bola alta.  É preciso continuar crescendo, sempre. E um crescimento disseminado por grande parte da população, não apenas nas faixas mais favorecidas da pirâmide. Seja aqui, seja em Angola, seja na Suécia. Mas por quê?

    Bom, cada um tem uma opinião, economia não é uma ciência simples de ter suas teorias comprovadas como na física. Mas li esse ano um livro muito interessante que trata basicamente desse aspecto: The Moral Consequences of Economic Growth (As Consequências Morais do Crescimento Econômico, em uma tradução livre), de Benjamin M. Friedman. Para ser sincero a leitura não foi de toda prazerosa, mas o primeiro terço do livro é sensacional. Friedman argumenta durante todo o texto que o crescimento econômico traz mais que benefícios materiais. Ele explica que o crescimento, além de aumentar a qualidade de vida, é a chave para tornar as pessoas mais abertas, democráticas e tolerantes.

    A idéia central do livro é que a pessoas, para se sentirem bem, precisam sempre perceber uma melhoria em suas vidas. Para fazer essa avaliação é utilizado um dos dois referenciais: ou elas comparam se estão melhores do que estavam anteriormente ou olham se estão melhores em comparação com as pessoas à sua volta.

    Se um país oferece constantemente a possibilidade de crescimento para todos – ou pelo menos para grande parte da sua população – a probabilidade de nos sentirmos satisfeitos é maior pois estaremos nos comparando com nosso próprio passado. O fato de mais pessoas estarem se sentindo satisfeitas sem precisar prejudicar os outros coloca todos no mesmo clima, de andar para frente, colaborando, fazendo parcerias e curtindo o caminho. Daí as posturas de abertura, tolerância e democracia nas pessoas.

    Em um momento de declínio ou estagnação, quando um país não consegue oferecer muitas possibilidades de crescimento para sua população – ou essas chances são dadas a muito poucas pessoas – a única maneira de nos sentirmos bem é quando nos comparamos com os outros. Ao usarmos esse referencial, se estamos melhores do que as pessoas à nossa volta, abrimos espaço para a tradicional puxada de tapete. É maior a probabilidade de se criar um sentimento generalizado de egoísmo, mágoa e corrupção.

    Como disse antes, é só uma teoria. Mas pelo menos no nosso caso acho que cai como uma luva. E explica até conceitos tão cristalizados na nossa cabeça, como o pejorativo “jeitinho brasileiro”. Afinal de contas pode ser que ele não se trate de um comportamento exclusivo nosso, mas de qualquer povo onde as oportunidades de crescimento não são distribuídas de maneira igualitária e a única maneira de avançar seja puxando o tapete dos outros. Ou dando um “jeitinho”. Se isso for verdade, e entrarmos em um ciclo constante de crescimento igualitário, acho muito provável que o “jeitinho” ruim vá diminuindo e só fique o bom, ligado à criatividade e inovação. Nesse ambiente, como dito antes, as pessoas sentem-se mais à vontade, tranqüilas e com maior auto-estima. E, por fim, a popularidade do governo continua em alta.

    Putz… esse testamento todo só para tentar explicar porque continuar crescendo é tão importante para o Lula. :)