
Na edição internacional da Newsweek de 27 de Outubro desse ano foram publicados dois artigos excelentes que formam o tema do que vou falar nesse post.
O primeiro texto, de Robert J. Samuelson, fala de como “bons tempos alimentam maus tempos, e vice-versa”. Se as coisas estão boas demais é provável que elas piorem, porque sucesso inspira excesso de confiança. Se a situação está difícil pode esperar que ela vai melhorar, porque normalmente a crise gera oportunidades e progresso. E assim o ciclo continuaria indefinidamente.
No próximo artigo Lawrence Lessig, como que complementando o anterior, fala que a discussão toda no mercado financeiro hoje não deveria ser “regular ou não regular”, e sim “regular pensando nos ciclos”. Uma nova maneira de gerenciar riscos, tendo na cabeça que altos e baixos são inevitáveis e até saudáveis. Como rodinhas na bicicleta de uma criança, que no caso seriam a regulação do mercado. Se a criança está fazendo muita estripulia colocamos as rodinhas, quando está mais tranquila tiramos as rodinhas. (atenção que essa metáfora é minha, não do cara)
Eu achei genial porque lendo assim parece óbvio, mas acho que não tem muita gente falando em soluções desse tipo. Em toda crise as pessoas se perguntam “Qual o furo nos modelos que estávamos utilizando?”, sempre deixando implícito que alguma coisa errada foi feita. Lessig sugere que talvez o furo não esteja no modelo e sim na falta de senso de oportunidade. Não existe modelo conveniente para todos os momentos, inclusive porque a utilização do mesmo por todo mundo altera a própria realidade que ele está tentando, bem, modelar :) Por isso temos que ajustá-lo tendo em mente as altas e baixas dos ciclos econômicos.
Regulação, altos e baixos
Não dá para negar a elegância da idéia de uma regulação anti-cíclica, que equilibre as variações de otimismo e pessimismo do mercado, por isso fiquei empolgado. Mas se olharmos para trás veremos que na verdade isso já acontece naturalmente, principalmente se considerarmos os EUA de 1860 para cá.
Na segunda metade do séc. XIX, após a Guerra da Secessão, os americanos se focaram na reconstituição de sua economia. A industrialização do país deu um salto considerável e todo o território foi “trilhado”, no que ficou conhecida como a bolha das Estradas de Ferro. Entre avanços e tropeços a regulação do mercado financeiro deles foi sendo aliviada e o fato é que em 1929 a bolsa estava no auge da empolgação. Deu no que deu.
Com a quebra da bolsa de Nova York as coisas mudaram de figura. A mão visível do governo ficou mais forte, como que para organizar a casa, e por fim o acordo de Bretton Woods foi sedimentado. O mercado ficou então mais comportado.
Mas em 1971 o mercado já estava domado demais e o acordo acabou sendo desfeito, trazendo aos poucos o clima de oba-oba de volta. Entre avanços e tropeços a regulação do mercado financeiro deles foi sendo aliviada e o fato é que em 2008 a bolsa estava no auge da empolgação. Deu no que deu. (sim, rolou um ‘ctrl+c,ctrl+v’ aqui).
Agora, como era de se esperar, já estão falando em “aumentar a regulação do mercado” novamente, e até usando a expressão “Bretton Woods II“. Mais uma vez o ciclo recomeça…
Fiz um esqueminha para facilitar a visualização de processo, onde contraponho as curvas “Empolgação” com “Regulação”. - o blog é meu e eu posso usar os termos bobos que eu quiser :)
Ou seja, como digo antes, pelo visto a tal a regulação anti-cíclica já acontece naturalmente. Mas provavelmente se aceitássemos mais harmoniosamente a existência dos ciclos e gerenciássemos melhor o processo ‘criação > destruição > criação’ as crises seriam solucionadas mais rapidamente e com menos blá-blá-blá.
A importância das bolhas
Toda bolha é difícil, mas também fundamental para avançarmos como sociedade. As principais bolhas do séc. XIX nos EUA, a dos Telégrafos e a das Estradas de Ferro, deixaram o país todo conectado para a comunicação e para o transporte. No século XX tivemos a quebra da bolsa em NY, que acabou resultando na consolidação da infra-estrutura financeira americana. Na virada do milênio a bolha das “.com” deixou quilômetros e mais quilômetros de fibra óptica espalhados pelo mundo, o que barateou o acesso à internet que temos hoje. Em todas as bolhas o mercado viu bancos e empresas quebrarem com a secura de crédito, mas os resultados dos investimentos feitos no momento de otimismo ficaram para população.
Nos momentos em que a regulação está em queda e a empolgação em alta é quando desenvolvemos as tecnologias que ficarão após a bolha (telecomunicações, transportes, finanças…). No momento em que empolgação começa a entrar em queda e a regulação é apertada, consolidamos essas inovações.


Por isso deixar o mercado fluir entre altos e baixos é importante pra gente, sendo uma perda de tempo perseguir uma regulação ou modelos ideais para todos os momentos.
Não sei ainda qual o resultado da crise atual, mas chutaria que vai ser um mundo multipolarizado, com poder redistribuído entre mais países. Uma base sólida para que os frutos das bolhas anteriores - meios de comunicação, sistemas de transporte e instrumentos financeiros avançados - sejam aproveitados por mais gente.
O perigo do modelo
Romântico né? Diria até meio utópico :) Mas temos que tomar um grande cuidado se os agentes financeiros realmente começarem a buscar uma regulação anti-cíclica. Não poderemos deixar que o pânico tome conta antes do necessário, senão alguns pulos de inovação vão deixar de existir sempre que alguém quiser colocar as rodinhas na bicicleta antes do momento certo. As bolhas ainda ocorrerão, mais seus resultados serão menos dramáticos, tanto os positivos como os negativos.

Então é isso… Uma teoria maluca de regulação para as regulações :) Um aperto periódico do mercado, que leve em conta os ciclos de altas e quedas mas que seja mais reativo que proativo. Será que rola? Ou é muita viagem? :)




















