
Em um artigo da Economist da semana passada vi pela primeira vez uma sigla que achei muito interessante: BIC.
O que seria o BIC? Nada mais que o BRIC sem o R. Ou seja: o conjunto de “países-emergentes-para-acompanhar-de-perto” – Brasil, Rússia, Índia e China – só que sem a Rússia! Achei muito bom.
Por que?
Quem me conhece sabe que tenho uma certa implicância com a Rússia. Não contra o povo em si, mas contra seu governo. Acho um bando de paspalhões que se sustenta apenas devido ao petróleo. Quer dizer, sustentava, mas vou falar disso mais na frente.
Quando olhamos de perto vemos que todos os países do BRIC são bem diferentes entre si. Mas digamos que a Rússia seja mais diferente que os outros. Apesar das peculiaridades, China, Índia e Brasil possuem uma característica comum que será fundamental na configuração da economia mundial após a crise: um mercado interno enorme e ativo, com classe média cada vez maior. Nenhum dos três países construiu suas economias sobre a exportação de apenas uma matéria-prima ou combustível, pelo contrário, precisaram desenvolver suas tecnologias de extração, agricultura, produção industrial e serviços. Esse esforço, mais intenso nas últimas décadas, demandou o surgimento de uma classe de profissionais interna, o que movimentou a economia e tem auxiliado no processo de desconcentração da renda.
Já a Rússia… Bem, a Rússia é o contrário disso tudo. Eles construíram sua economia basicamente em cima da exportação de petróleo, e nem para esse mercado se esforçaram para avançar na tecnologia de produção. Com um cenário parecido à de outros PetroEstados, em que os altos preços dos combustíveis bastaram para manter a economia forte, a riqueza ficou cada vez mais concentrada e a classe média cada vez menos qualificada. Isso porque simplesmente o dinheiro estava brotando do chão, não foi necessário muito esforço para conquistá-lo.
Sabe quem isso me lembra? A Venezuela de Chávez e o Irã de Ahmadinejad. Durante a alta do petróleo os dois, juntos com Putin em Moscou, estavam todo animadinhos. Rússia criando conflitos na Europa e bloqueando transporte de gás, Chávez se achando o próprio Símon Bolívar e querendo estender seu governo indefinidamente, e Irã querendo avançar seu poderio no Oriente Médio na base de posse de armamento nuclear. E todo o resto do mundo meio que quieto, pois dependia do combustível deles.
Só que com a crise o vento mudou, a demanda por combustível caiu e, com ela, o preço do petróleo. Agora os três ficaram, digamos, mais tímidos.
Diante disso, sinceramente, com quem vocês acham que a Rússia parece mais? Com o “nosso” grupo – Brasil, Índia e China – ou com o grupo “deles – Irã e Venezuela? Eu não tenho dúvidas, por isso gostei muito do BIC. Aliás, ainda proponho uma nova sigla: RIV, o grupo dos caras maus :)
Mas tem um perigo nessa história toda… Por hora podemos ficar esperançosos com o enfraquecimento dos três patetas, mas isso pode mudar assim que a crise acabar, chutemos que lá para o fim de 2010. Isso porque é muito provável que a demanda energética volte alta como nunca, considerando que a classe média mundial continuará crescendo até lá, mesmo com a crise. Infelizmente o mesmo não pode ser dito da capacidade de produção, porque não esperem que Rússia, Venezuela ou Irã estejam preocupados com isso. Digamos que planejamento de longo prazo não é o forte deles. Com a demanda por combustível mais alta mas a produção sem crescimento, inevitavelmente os preços subirão. Então é grande a probabilidade do poder dos petro-czares voltar com força total e eles ficarem ainda mais malucos. Ou seja: se não fizermos nada agora a irresponsabilidade e arrogância deles os deixarão ainda mais fortes depois da crise.
Por isso torçam para que o plano do Obama de investir em combustível renovável como saída para fortalecer a economia americana funcione. Não é demagogia ou uma nova bolha que está se criando, é a preparação mundial para se livrar desses malucos dos PetroEstados de uma vez por todas. Aí Venezuela, Rússia e Irã deverão desenvolver suas economias como todos nós temos feito: trabalhando. Quando isso acontecer, talvez, vá fazer sentido pensar em BRIC de novo, com todas as letras. Por enquanto eu prefiro ficar com BIC :)
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Artigo bom na Newsweek sobre os PetroEstados














