"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho

Na minha casa a gente tem uma assinatura da Piauí. Confesso que acho a revista bem chata, mas a edição desse mês tem um texto muito bom falando sobre a Cidade da Música, o prédio polêmico que estão construindo aqui no Rio e que, de acordo com o site da prefeitura, vai abrigar “a maior sala de concertos de orquestras sinfônicas e óperas da América Latina”.

O projeto é polêmico por diversos motivos, mas acho que as principais reclamações são:

  • O custo total já está muito maior que o previsto inicialmente (estimaram R$80 mi de investimento, já passou de R$450mi);
  • Essa grana, que representa 2% do orçamento total do Município, poderia ter sido investida em demandas mais “urgentes” para a cidade, como projetos de saúde e educação;
  • Já existe um atraso de dois anos em relação à data de inauguração original (no início anunciaram que seria em 2004);
  • O design foi feito por um arquiteto francês, Christian de Portzamparc, e não por um brasileiro.

As críticas habituais… Mas o texto da Piauí rebate isso tudo e defende a obra, por isso achei interessante. A frase que abre o artigo já é legal:

Mesmo com todos os ataques e denúncias que a envolvem, a Cidade da Música feita por Portzamparc no Rio é a mais relevante obra pública construída no Brasil desde Brasília.”

Confesso que não pesquisei profundamente como está a questão das suspeitas de superfaturamento, se já chegaram a alguma conclusão ou não, mas até agora eu também apóio totalmente a iniciativa do projeto. Gosto muito de arquitetura, acredito na função econômica que a cultura tem para qualquer cidade e acho que um prédio como esse será um ativo muito valioso para nós cariocas.

Então pensei em aproveitar o gancho para falar de um livro que que está no Top 10 de tudo que li até hoje: Civilização, de Kenneth Clark (Civilisation no original). Bem resumidamente trata-se da organização textual do documentário que Clark produziu para a BBC em 1969, que traçava um paralelo entre o desenvolvimento da civilização ocidental e história da arte. O livro é impressionante, não dá para falar de tudo aqui, mas tem uma idéia que permeia todo o texto que é muito útil quando pensamos na Cidade da Música.

O autor assume que para o avanço da civilização é necessário que as pessoas tenham confiança:

Civilisation requires confidence – confidence in the society in which one lives, belief in its philosophy, belief in its laws, and confidence in one’s mental powers.”

Na hora de definir “civilização” ele continua:

Civilisation means something more than energy and will and creative power … it means a sense of permanence.”

Nesse momento ele começa a entrar na importância da arquitetura para um povo, nos mostrando que é através dela que conquistamos esse senso de permanência e que, conseqüentemente, alimentamos nossa confiança enquanto comunidade. Não é à toa que a China está gastando os tubos construindo megas-prédios pelo país inteiro, e que vemos cidades patrocinando “pacotões” de construções em determinados períodos para aumentar a moral de seus moradores. Vimos isso na segunda metade do século passado em Paris, com as “Grande Obras” do Miterrand (dentre elas a ampliação do Louvre, o La Defense, o museu d’Orsay e a Bibliothèque de France) e em Londres, com as “Obras do Milênio” do Blair (o Millenium Dome, a Millenium Bridge e o Millenium Wheel/London Eye).

Então o pensamento de “temos que gastar o $ primeiro com o urgente, como saúde e educação, e só depois em ‘luxos’ como arquitetura” talvez seja limitado, pois não entende que o investimento certo em arquitetura pode solidificar a auto-estima necessária para que um povo produza mais e, como resultado, gere mais valor que poderá ser aplicado nessas questões básicas.

Comecei a catar dados de algumas construções que foram inauguradas ao redor do mundo há poucos anos, para comparar com o nosso caso. Ver se o valor, o tempo de construção e a nacionalidade do arquiteto estão fora da realidade, e encontrei mais ou menos o seguinte:

CIDADE DA MÚSICA
Local: Rio de Janeiro
Investimento: R$460mi
Tempo de construção: 6 anos
Arquiteto: Christian de Portzamparc (França)
 
TATE MODERN
Local: Londres / Inglaterra
Investimento: R$620mi
Tempo de reforma: 8 anos
Arquiteto: Escritório Herzog & de Meuron (Suíça)
CASA DA MUSICA
Local: Porto / Portugal
Investimento: R$300mi
Tempo de construção: 5 anos
Arquiteto: Rem Koolhaas (Holanda)
 
NINHO DO PÁSSARO
Local: Pequim, China
Investimento: R$1bi
Tempo de construção: 5 anos
Arquiteto: Escritório Herzog & de Meuron (Suíça)
 
JEWISH MUSEUM
Local: Berlim, Alemanha
Investimento: R$130mi
Tempo de construção: 8 anos
Arquiteto: Daniel Libeskind (Polônia)
 

Os dados são estimativas que achei em sites de design e notícias, mas dá para ver que o “nosso” projeto não está muito por fora do padrão. Aliás, o planejamento inicial que me parece um pouco irreal, de orçamento de R$80mi e prazo para construção de dois anos. Então pensei o seguinte: será que não chutaram esses valores para baixo para reduzirem o risco do projeto ser descartado, como aconteceu com o Guggenheim?

Se foi erro ou se foi “lapso estratégico”, para ser sincero, não me importa muito. Enquanto está tudo dentro do padrão que vemos pelo mundo acho que o projeto é válido. Sei que daqui a 10 anos vou passar pelo prédio e pensar “Que bom ter uma construção assim na cidade”, da mesma forma que me sinto quando passo pelo MAM.

Agora é ficar na torcida para que ele seja inaugurado logo :)

3 Comentarios

Thereza

dezembro 5th, 2008

Feliphe,

Na realidade, esse valor de R$80 milhões foi um “equívoco” da imprensa. A Cidade da Música em nenhum momento teve esse custo.
A verdade é que foram feitas algumas licitações com objetivos diferentes (estrutura, instalações, acabamentos, acústica) e uma das licitações, a de estrutura que teve esse valor de R$80 milhões, então a imprensa (sensacionalista) divulgou que o custo total da obra era essa.

Mas uma obra desse porte e com aspectos, tanto arquitetônicos quanto acústicos, tão sofisticados nunca custaria esse valor. E num comparativo com todas as salas de concerto feitas pelo mundo nos últimos 10 anos ela só perde, por motivo$ óbvio$, para a construída na China.

Não tenho dúvidas que em breve o carioca esquecerá as picuinhas políticas e se orgulhará da Cidade da Música bem como se orgulha do Teatro Municipal, MAM e outros equipamentos tão importante para a cidade e o país.

Feliphe

dezembro 5th, 2008

Eu concordo Thereza. Acho bom, como cidadãos, sempre ficarmos de olho nos investimentos do governo. Mas ao mesmo tempo temos que ter senso crítico de posicionar valores nas suas devidas dimensões e impactos, um ponto que acho que a imprensa brasileira peca frequentemente.

Nunca me esqueço do que li num jornal aqui no Rio falando da inauguração de uma estação de metrô de Copacabana. O texto falava quantos metros de profundidade a obra teria, quantos quilos de aço foram usados, quantos azulejos e todo tipo de informação inútil. Mas em nenhum momento falava qual o potencial de origem de empregos, ganho de tempo da população, integração da cidade, informações realmente importantes para o leitor do jornal.

O que é um pouco confortável saber é que picuinha acontece no mundo todo, mas mesmo assim os projetos acontecem devido à coragem de determinadas pessoas. Essa obra mesmo do Libeskind, em Berlim, foi bem polemica. Mas tive a oportunidade de visitar o museu e, tenho que dizer, foi o lugar mais marcante que conheci na cidade. Foi em grande parte ele o responsável por ter deixado na minha cabeça que Berlim é uma cidade jovem, criativa, moderna. Esse tipo de retorno os jornais não levantam.

Enfim, muito obrigado pelo seu comentário. E, como digo no artigo, estou doido para ver o prédio pronto logo :)

Joana

dezembro 10th, 2008

mais polêmica…

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