"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Papo de buteco

Eu tenho uma teoria :)

Tudo que escrevo aqui no blog tento deixar o mais embasado possível. Primeiro para não pagar mico falando (muita) besteira e segundo para tentar passar um pouco de credibilidade. Mas nesse post vou tomar a liberdade de dar uma viajada, então preparem-se: não vou colocar nenhuma referência de fonte externa. Só vou falar baseado em algumas experiências pessoais e se não concordarem com nada ótimo, me digam que o tópico me interessa muito.

A minha teoria é para um processo de aprendizado, que tenho seguido e que tem me deixado satisfeito. Comecei a segui-lo inconscientemente, em atividades completamente diferentes umas das outras, e agora tenho utilizado o método um pouco mais sistematicamente. Mas não criem muita expectativa, sei que a idéia já é seguida por um monte de gente – provavelmente também de forma inconsciente. Só estou tentando organizar as etapas.

Bom, começando a divagação, acredito na idéia de ciclo. Para várias coisas na vida acho que a gente parte de um ponto, passa por um monte de coisa e depois acaba voltando para o começo. Mas tendo passado pelo ciclo a gente acaba aproveitando melhor quando volta ao estágio inicial. E o processo que sugiro também é um ciclo, que represento na ilustração abaixo. Depois da imagem eu explico cada etapa.

 

1) Viagem (Descabida)

Essa é a primeira etapa, de onde normalmente começamos. É o momento que fazemos alguma atividade do primeiro jeito que nos vem a cabeça, sem ter noção nenhuma do assunto. Às vezes, ingenuamente, acreditamos que estamos fazendo certo. Mas no geral é uma porcaria mesmo.

2) Dominando a técnica

Na segunda parte do ciclo passamos a aprender as regras da atividade. O feijão com arroz, a técnica, os truques. É uma fase meio fria ainda, não acrescentamos nada, mas começamos a construir a estrutura para um possível progresso. É a parte mais braçal do processo. Estudar, estudar, estudar.

3) Cópia descarada

Após aprender a técnica podemos passar a executar razoavelmente a atividade, mas… bem, ainda não desenvolvemos um senso suficientemente sofisticado para irmos sozinho pelo caminho. Mas já estamos com a teoria estruturada na nossa cabeça, começamos a identificar quem está fazendo bem ou não. Então, nesse momento, comece a copiar. Mas copiar mesmo, sem culpa. Acho que tem gente que se atrapalha nesse momento, acha que não é ético copiar. Não ligue para esses pensamentos, quase todo mundo tem que passar por isso. E o mais engraçado: a maioria das pessoas já vai ficar satisfeita com sua cópia, simplesmente porque nem passou pela segunda etapa. Como as pessoas não sabem da teoria não se interessam em saber quem está fazendo bem ou não. Ou seja: quando virem o que você fez nem saberão que é cópia.

4) Cópia, mas sem olhar

Esse é um momento bem interessante, quando começamos a copiar dos nossos exemplos sem colar. Sem olhar para o lado. Quando as referências do que admiramos já estão tão fortes na nossa cabeça que podemos começar a agir sem consultá-las. Esse momento é legal porque você passa a misturar referências com mais autoridade e pode até inovar. Usar outras fontes de um jeito que os seus próprios autores talvez não tenham imaginado. Não se engane, ainda é cópia, mas chegar nesse estágio já é uma grande conquista.

5) Viagem (com cabimento)

Pronto, de novo no ponto inicial. Voltamos a executar da primeira forma que nos vem à cabeça. A diferença é que, dessa vez, o que for feito vai prestar. E muito. Depois de ter passado por todos esses estágios você já tem domínio suficiente para usar a técnica, absorver as influências, ultrapassar elas e, finalmente, criar. Eu diria que é a combinação ideal de ingenuidade com maestria. Esse momento é importante para provar que um talento pode sim ser construído com muito esforço, em detrimento da idéia que só quem nasce com o tal dom consegue ter um desempenho excepcional na atividade.

***

Sei que lendo assim pode parecer um pouco óbvio, mas pelo menos para mim está sendo muito útil pensar desse jeito. Principalmente quanto ao terceiro ponto, por causa dele não me sinto mais culpado de copiar alguma coisa. Tem gente que fica tanto nessa pressão de “Não copiar, não copiar” que não consegue passar nem do estágio da técnica.

Agora as perguntas: “Quem esse fedelho de 25 anos pensa que é para falar de maestria?”, “Será que ele acha que já passou por todos os estágios em alguma coisa para ter pensado nesse ciclo?”. :)

Não, claro que não. É só um chute que estou fazendo baseado no que eu vivi e no que eu vejo por aí.

Acho que em algumas atividades à que me dedico estou entre os estágios 2 e 3, da técnica para a cópia. Quando comecei a fazer site só saía porcaria, e eu sempre achava que estava ficando legal. Até eu começar a aprender os softwares, pesquisar mais, e ver que tudo que eu fazia era muito ruim. Agora já fiz algumas coisas que sei que passam – pelo menos os clientes ficaram felizes :). Sei que não são geniais, mas têm a organização convencional do que se acha bonito na internet. O mesmo aconteceu quando tive que aprender a fazer design de folders no tempo que eu morei em Londres. Também sinto que está acontecendo no meu trabalho de desenvolvimento de sistemas, e até nos interesses fora de trabalho, como economia por exemplo. Tenho consciência que o que eu falo aqui não passa de cópia do que leio em outros lugares, mas sinto que estou começando a dominar mais o assunto para fazer algumas referências cruzadas.

Fechando, é assim que procuro organizar o processo de aprendizado quando estou encarando um campo de conhecimento novo. E, como disse no início do texto, acho que está me sendo útil. Como pensei que também poderia ser de utilidade para outras pessoas que, como eu, não possuem um talento nato mas não se incomodam em tentar aprender :), decidi postar o pensamento aqui.

Se não concordarem ou tiverem algo a acrescentar ficarei muito feliz com a contribuiçao.

(para quem está se perguntando: sim, troquei as fontes do site :) Para aumentar a legibilidade. Fiz baseado num post que vi em outro blog.)

4 Comentarios

Ricardo

novembro 20th, 2008

Alguns comentários:

- onde já se viu ciclo no sentido anti-horário? :)
- pra que passar pela fase 1 se você já sabe que só vai sair merda?
- eu acho que eu começaria pela fase 3 pra depois passar pra 2. Primeiro copia, depois entende a técnica. Não?

Abraço!

Feliphe

novembro 20th, 2008

1) Esse é um ciclo australiano :)

2) Bueno, como eu disse essa é a minha percepção. Mas o que você diz é verdade, se já sabe que sem ter noção provavelmente vai sair ruim então é melhor estudar um pouco antes, né?

O grande problema é que acho que muita gente não pensa assim, já fazendo/falando qualquer coisa sem tentar se fundamentar antes. É o mais fácil… Mas ao se dar conta do ciclo você perde menos tempo, já pulando para o aprendizado de fato, sem tentar inventar a roda.

E sem esquecer dos gênios, que talvez já consigam coisas que prestem sem passar pelo ciclo. Mas definitivamente não é o meu caso.

3) Nada te impede de fazer isso. Mas nos meus exemplos seria difícil. Para programação e para design eu preciso da técnica, não conseguiria copiar alguma coisa sem ela. Para economia eu preciso pelo menos tentar identificar o que é besteira e o que não é para saber de quem copiar, e para isso preciso de fundamento também.

Mas você tem razão, as etapas 2 e 3 são meio fluidas, porque enquanto você copia você aprende. Mas acho que temos que ter um mínimo de base antes, pelo menos para saber de onde copiar. Não acha?

Muito obrigado pelos comentários! :)

novembro 25th, 2008

Depois dos parabéns pelo blog. Parabéns pelo blog! Leio sempre que posso. Posto dois comentários:

1) Não é um comentário. É uma dica. Se vc gosta de “visual thinking”, e é o que parece já que vc pensou em um ciclo e fez o desenho =). Recomendo muito fortemente dois blogs: o logic+emotion e o blog do Dave Gray. Os dois são geniais.

2) Vendo o 1…5 pensei logo no “disciplina é liberdade”, daquela dupla sertaneja Renato Russo e Kant. A falsa liberdade que temos no “1″, somada a um pouco (ou muito) de auto disciplina “roda” e volta pro “5″. Não sei se é isso pra vc, mas eu vejo a educação um pouco dessa maneira. A liberdade inicial não nos leva a lugar nenhum. É preciso um bocado de teoria pra ser livre. É claro que picasso saberia pintar direitinho. Se ele quisesse.

Feliphe

novembro 26th, 2008

Marco, gostei tanto do seu comentário que até mudei a estrutura do menu do blog :) Agora incluí “posts mais comentados”, para não perder observações como as suas.

1) Muito legais os sites, vou olhar com mais calma. Confesso que fiquei mais curioso pelo segundo, me lembrou o post que falo de gráficos. Aliás, nesse mesmo post falo da tal “teia” da Amazon, e nela encontrei um livro que acho que tem a ver com isso também, dá uma olhada.

2)Ih… esse papo está pedindo um chope mesmo :) Mas penso muito nisso que você disse. Também acho que disciplina resulta em liberdade e que nessa “liberdade” inicial não se está livre, porque na verdade você fica preso no mesmo lugar. Mas tem gente que não se toca e fica nessa mesmo.

Mas o grande lance (eu acho) é que quando nos dedicamos a aprender alguma coisa que gostamos acabamos desenvolvendo uma “disciplina light”, que é séria mas não é pesada pra gente. Não é sacrificante. Você acaba se aprofundando, se aprofundando, e quando vê está sabendo do assunto. E em nenhum momento pensou na “disciplina” propriamente dita. Quem usaria esse termo seria alguém de fora, te vendo se dedicar no assunto.

Ou seja: criamos uma disciplina para o que escolhemos. Mas escolhemos quando temos liberdade. Então – viajando um pouco – a liberdade é resultado da disciplina ou seria o inverso?

Estou madrugando, então posso estar falando besteira :) Mas ainda vou escrever um post sobre isso, a dedicação a alguma atividade por prazer e como o cérebro reage nesse processo (estou lendo um livro sobre isso).

Obrigado pelos elogios!

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