"Be like a duck. Remain calm on the surface and paddle like hell underneath." Michael Caine
Categorias: Papo de buteco

No final de Novembro apresentei um artigo no Interaction South-America IXDA 2009 falando sobre Design de Informação aplicado a negócios. É um estudo de caso, baseado em um projeto que participei neste ano. Concluo a apresentação falando que existe espaço no mercado a ser ocupado por designers que entendam de processos, que consigam explicar através de imagens os problemas de empresas.

Para quem quiser ler, o artigo está aqui. A apresentação está abaixo.

Network

Li um livro interessante sobre redes há uns 2 meses (Linked, Albert-László Barabási), e achei oportuno falar sobre o assunto aqui no blog depois desse apagão na semana passada.

A imprensa ainda está discutindo os reais motivos do incidente (mau tempo? falta de investimentos?). Eu não vou arriscar qual a razão, mas o que todo mundo já sabe é que o acontecido foi consequência de um efeito em cascata, em que diferentes transmissores foram derrubando um ao outro em sequência, até apagar 18 estados do país.

Por que isso? Porque nossas distribuição de eletricidade é altamente interligada, com hubs “conectores” que ajudam os diversos pontos da rede a se comunicar mas, ao mesmo tempo, acabam configurando em uma fragilidade do sistema. Se um hub é derrubado muitos pontos da cadeia sofrem.

O que é interessante do Linked é que ele fala exatamente sobre isso, mas usando um monte de exemplos diferentes. Inclusive distribuição de energia elétrica, que volta e meia dá cano lá nos Estados Unidos. Além de eletricidade, o livro estuda as características de redes aplicadas a economia, relacionamentos, vírus, células, internet,  cientistas, atores de cinema e por aí vai. E caso a caso o autor vai mostrando que as premissas das redes se repetem, nos fazendo ver o mundo com outros olhos.

Recomento a leitura, mas já digo aqui alguns dos pontos que mais me chamaram atenção no livro:

  • Temos que aproveitar nossos laços “fracos” com hubs

Como as pessoas chegam mais frequentemente a seus novos empregos: através de indicação de amigos próximos ou por meio de “conhecidos”? Apesar de não ser óbvio (pelo menos para mim), pesquisas indicam que a segunda alternativa é a mais forte na busca por novos empregos. Isso porque nossos amigos normalmente circulam pelos mesmos locais que nós, convivendo com as mesmas pessoas de nosso círculo. O conjunto de conhecimento deles (como por exemplo “oportunidades de emprego”) acaba sendo próximo ao nosso. Mas os “conhecidos”, aquelas pessoas com quem falamos de vez em quando mas não são tão íntimas assim, nos abrem um mundo novo de possibilidades, em meios que não circulamos tão frequentemente. Por isso existe uma chance maior desses contatos “fracos”, e não nossos amigos mais próximos, saberem daquela oportunidade de emprego que estamos procurando.

Week ties play a crucial role in our abilitiy to communicate with the outside world. Often our close friends can offer us little help in finding a job. They move in the same circles we do and are inevitably exposed to the same information. To get new information, we have to activate our weak ties.”

  • Os hubs são críticos para a sustentação de uma rede

Justamente por conta disso, é importante que existam os hubs: pontos da cadeia com mais conexões que a média. É natural que eles emerjam nas redes  – o buscador com algoritmo mais inteligente, o funcionário mais sociável na empresa, a represa mais propícia para geração de eletricidade, a empresa de processos mais eficientes – e eles permitem que os pontos distantes se comuniquem, mesmo que não estejam diretamente ligados.

Even a few extra links are sufficiente to drastically decrease the average separation between nodes…  We can afford to be very provincial in choosing our friends, as long as a small fraction of the population has some long-range links. Huge networks do not need  to be full of random links to display small world features. A few such links will do the job.”

  • Hubs seguem pareto

Apesar de ser normal o surgimento de hubs, a quantidade deles em relação ao total tende a respeitar uma proporção de pareto, com apenas 20% dos nós sendo responsável pela interligação de 80% da rede. Ou seja, nós com poucas ligações são a grande maioria, mas eles continuam interligados justamente por causa dos hubs.

In most real networks the majority of nodes have only a few links and these numerous tiny nodes coexist with a few big hubs, nodes with a anomalously high number of links. The few links connecting the smaller nodes to each other are not sufficiente to ensure that the network is fully connected. This function is secured by the relatively rare hubs that keep the real networks from falling apart.”

  • A existência dos hubs é uma virtude das redes, mas também uma fragilidade inevitável

Esses nós altamente conectados conferem à rede um alto grau de tolerância contra falhas. Seguindo pareto, poderíamos remover até 80% dos nós, se os hubs continuarem lá a rede não entrará em colapso. Podemos até perder algum dos hubs, que os outros vão continuar sustentando o sistema. Mas se houver um ataque simultâneo em diversos hubs as consequências podem ser graves.

Um exemplo de perda de hub foi a queda do Lehman Brothers no ano passado, que afetou toda a rede (economia) mas não a colapsou, porque outros hubs continuram de pé (Goldman Sachs,  JPMorgan, Bank of America…). Já o apagão foi um exemplo de vários hubs caindo ao mesmo tempo (se não me engano foram 5 linhas importantes de distribuição).

Toda rede configurada dessa maneira (muitos nós fracos + alguns hubs) possui invevitavelmente um grau de vulnerabilidade. Isso porque os hubs podem cair. Ou seja: esperar que uma rede elétrica interconectada seja infalível é impossível.

Such vulnerability to atack is an inherent property of scale-free networks… Disable a few of the hubs and a scale-free network will fall to pieces in no time.”

  • Os hubs não geram inovação, mas são early-adopters

Normalmente as inovações não são criadas nos hubs, que talvez estejam muito ocupados fazendo suas conexões :) Mas esses nós altamente conectados acabam absorvendo as inovações rapidamente porque estão em contato com os seus criadores. Uma vez que a inovação é adotada por um hub, ela acaba passando para o resto dos nós mais fracos da cadeia.

Innovations spread from innovators to hubs. The hubs in turn send the information out along their numerous links, reaching most people within a given social or professional network.”

Moral da história?

Aceite que os hubs surgem, eles sustentarão sua rede e ligarão nós fracos. Se os hubs forem positivos (ex: fontes de energia elétrica) procure uma quantidade ótima deles: um número muito baixo deixará a rede frágil, muitos hubs inibirão a inovação.  Cuide de seus hubs positivos, a queda de vários ao mesmo tempo pode colapsar a rede.

Se os hubs forem negativos (ex: pessoas infectadas por vírus), foque sua atenção neles. A retorno coletivo para a rede é maior quando os hubs são tratados.

Engraçado como isso se aplica a muita coisa. É bom ter um grupo de pessoas muito conectadas em um ambiente de trabalho (apenas um hub pode fazer um estrago quando sai da empresa). É bom não depender de apenas uma grande empresa na economia do país (por esse aspecto acho que estamos indo bem, com Petrobrás começando a ter como companhia a Vale, Gerdau, Unibanco-Itaú, Embraer, JBS, Votorantim…). É bom investirmos em hubs de energia espalhados pelo país (Tucuruí, Jirau…). É bom identificarmos uma erva-daninha no jardim (o hub negativo ataca os nós fracos).

E não dá para ficar na utopia de só contar com os nós fracos da cauda longa. Mesmo com internet, avanços em logística e redução de custos de produção, não seria muito estratégico contar apenas com uma infinidade de bancos menores, geração de energia difusa, empresas pequenas, profissionais independentes e esse tipo de coisa. Não dá para lutar muito contra a existência dos “too big to fail”, eles continuarão por aí, é natural das redes que eles surjam. O próprio Chris Anderson já admitiu isso. Os hubs existem, continuarão existindo, e é importante que sejam gerenciados para o sucesso coletivo da rede.

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Há alguns dias escrevi um post levantando a hipótese que talvez nossa imprensa estivesse ficando mais sofisticada, mas essa semana já aconteceu uma coisa que me fez repensar um pouco isso :) Definitivamente não são todos os veículos que estão seguindo o mesmo caminho.

O exemplo que eu tinha usado no outro post foi da Folha, que confesso que gosto bastante. Eles são críticos, têm posições próprias e estão fazendo um jornal moderno, com ênfase em infográficos e espaço para “mea culpa” excelente (a sessão Ombudsman, publicada quinzenalmente).

Mas infelizmente nem todo mundo está com essa visão… E o que me deixa mais revoltado é a Veja. A revista mais lida do país, na minha humilde opinião, está cada vez mais caída. Parece que eles estão querendo atingir um público maior fazendo um jornalismo sensacionalista. E eu nem sou desses que acha a Veja “porca capitalista”, li e acompanhei por muito tempo, mas tenho a impressão que a qualidade caiu bastante recentemente.

Esta semana isso está nítido… As capas da Veja e da Newsweek se parecem bastante (reproduzo abaixo). A diferença são os assuntos: enquanto a Newsweek fala da possibilidade de estarmos entrando em outra bolha financeira – aliás, em um artigo ótimo – a Veja está falando de… tchananan… fim do mundo! O que, cá entre nós, me parece um super jabá pelo lançamento desse filme 2012 na semana que vem. Na boa, tomara que seja um jabá, porque escrever uma besteira dessas sem nem estar ganhando dinheiro, deliberando que o tema é de fato relevante para capa, realmente é muita pobreza de espírito.

Se bem que é consistente com as capas que a revista vem trazendo nos últimos meses: dieta que funciona, barraco de atriz da Globo, ator da Globo viciado em drogas

Desserviço total para a população.

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