"Diga-me com quem andas e eu te direi se vou contigo" Letice Botelho
Categorias: Livros, Papo de buteco

Há alguns posts atrás falei que ia colocar aqui dois textos do Baudelaire. Só que descobri depois que um dos textos que eu estava pensando na verdade é do Balzac, tirado do livro Manual do dândi. Mas beleza, o pequeno equívoco não tira a graça do texto.

Primeiro vou contar rapidamente a história de como cheguei ao Manual do dândi. Tenho um amigo, que tem um outro amigo que é um fodão, famoso até. Mas não vou falar quem é :) Um dia esse cara fodão chegou para o meu amigo e disse “Acho que você já pode ler esse livro”, e deu o Manual do dândi de presente para ele. Achei muito maneiro, fiquei curiosão, e pedi para a minha empregada doméstica o livro também. Acho que não ia adiantar esperar alguém me dar de presente… Enfim, não sei se eu estava pronto para o livro, mas gostei muito. Passagens sensacionais, minha cópia já está toda sublinhada.

Não tenho certeza, mas acho que o cara falou que meu amigo “já podia” ler o livro porque o texto dele é um pouco polêmico, pode ser interpretado como fútil ou esnobe. Já escutei até que ele era “pernóstico”. O lance é que ele tem que ser visto de uma outra maneira, que eu não sei explicar exatamente. Mas vou tentar dar um exemplo. Abaixo a passagem que eu comentei que iria postar aqui, depois o tal exemplo.

Assim, os versados na vida elegante não cobrem seus tapetes com uma longa faixa verde, indicando por onde passar, e não temem as visitas de um velho tio asmático. Não consultam o termômetro para sair com seus cavalos. Submetidos tanto aos encargos quanto aos benefícios da fortuna, não parecem nunca contrariados por um dano; pois, neles, tudo se conserta com dinheiro ou se resolve com o maior ou menor esforço dos seus criados. Colocar um vaso, um relógio de parede numa caixa, cobrir seus divãs com capas, embrulhar um lustre não é se assemelhar a essa boa gente que, após ter feito economias para comprar candelabros, cobrem-nos imediatamente com uma gaze espessa? O homem de gosto deve desfrutar de tudo que possui. Ele não gosta das coisas que exigem demasiado respeito.

A exemplo da natureza, ele não teme exibir todos os dias o seu esplendor; ele é capaz de reproduzi-la. Além disso, não espera até que seus móveis atestem seus serviços através de numerosos galões, para dar-lhes outro destino, e jamais se queixa do preço excessivo das coisas, pois ele tudo previu. Para o homem da vida ocupada, as recepções são solenidades; ele tem suas sagrações periódicas para os quais desembala tudo, esvazia seus armários e descobre seus bronzes; mas o homem da vida elegante sabe receber a toda hora sem se deixar surpreender. Sua divisa é a de uma família cuja glória associa-se à descoberta do novo mundo; ele está renovadamente sempre paratus, sempre pronto, sempre semelhante a si mesmo. Sua casa, seus criados, suas carruagens, seu luxo, ignoram o preconceito do domingo. Todos os dias são dias de festa.

Acho sensacional essa passagem. Tire a capinha do celular, tire os plásticos no carro novo. Se você tem, use. Se por acaso estragar e isso for uma tragédia para você, então o fato é que talvez você nem devesse ter. Sei que é um pouco forte isso, mas considerando coisas materiais, acho que é bom termos apenas o que não será o fim do mundo se perdermos.

Mas voltando a questão do texto ser “pernóstico”. A frase…

Submetidos tanto aos encargos quanto aos benefícios da fortuna, não parecem nunca contrariados por um dano; pois, neles, tudo se conserta com dinheiro ou se resolve com o maior ou menor esforço dos seus criados.

…realmente pode dar um pouco essa impressão de “metido”. Mas não interpretei como sendo necessariamente um cara rico, e sim um cara que vive bem dentro das suas condições. E o lance dos criados acho que podemos considerar o contexto da época em que isso foi escrito.

O exemplo que me vem a cabeça quando leio esses parágrafos é o meu avô. Com certeza o cara era um dândi. Ele ainda é vivo, mas está doente e não faz mais as estripulias que fazia antes. Mas na ativa ele era dândi, e longe de ser rico. Minha família não é rica, mas meu avô estava sempre pronto para receber as pessoas, quem quer que fosse. E queria sempre o melhor, seja para ele, seja para quem estivesse com ele. Não tinha criado, não tinha carruagem, não tinha luxo, mas todos os dias eram de festa. E isso, da maneira dele, era elegância.

Eu acho que é nesse tom que o livro tem que ser lido.

*o post era para ser apenas o texto do Balzac e acabei desvirtuando um pouco, desculpem :)

Categorias: Design, Web

Acho que já tem uns dois anos que mantenho o blog. Nesse tempo aprendi a ficar viciado em uma coisa que quem tem site vai entender: Google Analytics. Até que estou menos obcecado agora, mas teve uma época que eu checava o dashboard da ferramenta pelo menos uma vez por dia. Aqueles mil gráficos mostrando tudo sobre os visitante do site (quais páginas mais acessam, quanto tempo ficam navegando, de onde estão vindo…) é de deixar qualquer um maluco. Continuo acompanhando, mas de forma mais comedida :)

A questão é: a gente adora acompanhar um gráfico. Quando nos mostram de forma simples um bando de informação que normalmente é difícil de entender a gente acaba prestando atenção. Sacando isso já estão desenvolvendo ferramentas onde você pode praticamente monitorar a sua vida, como o Daytum.


Achei a idéia interessante, mas cá para nós, ficar anotando”virtualmente” tudo que fizemos o dia inteiro não é lá muito prático. O monitoramento contínuo que dá certo tem que ser simples. A palavra é “automático”. Para que o serviço realmente torne-se popular as análises já tem que vir naturalmente para o usuário, sem que ele precise ficar consolidando os dados manualmente. Como o Google Analyitcs: você loga e já vê os gráficos a partir dos dados coletados pelo sistema. Fácil.

Dois serviços já se tornaram bastante populares nos EUA e alguns outros lugares do mundo seguindo essa premissa: o Mint e o Nike+.



E no trabalho?

Eu sou fervoroso defensor de que o dia-a-dia no trabalho fique mais simples. Afinal são 8h em média (no mínimo) que ficamos no escritório. E também gosto da idéia de utilizar aplicativos para deixar o gerenciamento de produtividade mais simples, natural. Os fornecedores de TI já estão atentos para isso, oferecendo serviços cada vez mais gráficos para acompanhamento de linhas de produção, equipes de vendas e redes de suprimentos. Mas isso tudo já é meio que quantificável, mastigável, certo? Eles só estão organizando os dados e exibindo as consolidações de forma visual.

Mas e questões mais intangíveis do mundo corporativo? Existem pontos que podem redefinir totalmente alguns procedimentos de trabalho, como por exemplo os relacionamentos dentro da organização que não estão refletidos no organograma e a variação de tempo médio que funcionários precisam dedicar em determinadas atividades. Estes pontos podem parecer difíceis de serem quantificados, nesse caso os dados a serem monitorados não são tão óbvios quanto “produtos em estoque”. Mas eles existem, e provavelmente já estão disponíveis na empresa. Só é preciso desenvolver as ferramentas que vão coletá-los e consolidá-los em gráficos.

Para essas questões eu acho que o pessoal de desenvolvimento de aplicativos web está mais adiantado que as consultorias. As empresas de TI já estão desenvolvendo ferramentas desse tipo, mas elas ainda não se tornaram tão comuns (ou faladas) como as ferramentas mais “batidas”, como CRM e ERP. Por que? Também não sei. O meu palpite é que os próprios fornecedores ainda não acreditam no potencial de alcance desses recursos. Acho que a tecnologia ainda é vista como “passa-tempo de internet”, o que é uma pena. Se as pessoas já estão monitorando suas corridas pelo iPod, porque não iriam querer monitorar os relacionamentos de suas caixas de email? Ou seu nível de aprendizado, continuamente?

De qualquer forma acho que o “monitoramento pessoal e contínuo” é uma tendência que ainda vai crescer muito, então é bom ficar de olho. Reuni alguns exemplos dessas iniciativas, que talvez possam servir de referência para quem tiver lendo esse post.

Relacionamentos no ambiente de trabalho através das trocas de emails

Monitoramento “passivo” de uso do tempo de trabalho com Manictime

Categorias: Papo de buteco

Passei o último final de semana em São Paulo (parte de uma looonga temporada paulista) e me encontrei no sábado e no domingo com uma grande amiga que tenho na cidade. Ao longos das milhões de conversas e vários cafés fiquei de passar alguns nomes e links para ela. Enquanto escrevia o email com essas referências pensei que talvez poderia transformar a mensagem em um post aqui para o blog, assim poderia alimentar um pouco ele (o que não estou conseguindo fazer muito) e os links talvez ainda pudessem ser úteis para outras pessoas. Então aqui vai meu “email aberto” :)

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Paty, segue abaixo tudo que te prometi:

1) Egon Schiele

O Schiele foi uma das melhores descobertas da viagem para Áustria que fiz no último carnaval. Ele é um dos principais artistas austríacos, mas não é tão conhecido fora do país como o Klimt e o Hundertwasser. Mas o cara era genial. Foi protegido do Klimt e morreu novo, com 28 anos. Acho que foi tipo o “enfant terrible” da Áustria. O que mais gosto são os auto-retratos dele. Mas não espere algo romântico como o Klimt nem otimista como o Hundertwasser, o Schiele era mais sombrio. Mas eu acho maneiro também :)

Self Portrait, by Egon Schiele

2) Accuradio

Accuradio é uma rádio online grátis. Estou viciado na estação de Brazilian Jazz, dentro da seção de Jazz. Esquisito ficar escutando seleção de música brasileira montada por gringos, mas é que a rádio é muito boa. Perfeita para sábados e domingos relax. (Confissão tosca: também tem uma estação de pop que escuto bastante, tipo “Top 10″)

3) Thierry de Mey

falei dele no blog. Aliás, no mesmo post falo do Vik Muniz, daquela questão que estávamos conversando ontem de “design x arte”. O Thierry de Mey faz vídeo-dança, muito bom. Talvez tenha algumas referências para seu curso de vídeo experimental. Abaixo o vídeo que mais gosto dele.

4) Jorge Drexler

Cantor uruguaio. Me amarro. A música que falei é La Edad Del Cielo. Achei um clipezinho tosco no Youtube, mas pelo menos dá para escutar a música. O disco que ficou mais famoso acho que é o Eco, talvez por causa da música do filme Diários de Motocicleta (por qual ele ganhou o Oscar), mas prefiro o Frontera, que é a que tem a Edad Del Cielo.

Esqueci alguma coisa? :)